Os donos da Casa:


Ricardo acaba de receber uma nova inquilina em sua casa, sua cunhada. Se não bastasse o filho que vem por aí e o seu casamento em tempo recorde, agora ele vai ter que conviver com uma mulher nada comum.

Daniela acaba de voltar dos Estados Unidos e resolveu tomar juízo. São que descobrir que não é tão fácil assim ser certinha.

Eles não tinham nada em comum, até se conhecerem...

E essa é a estória que os dois vão contar para você.

Autora: Li

Arquivo de Capítulos:


Autora:Li



Os livros que antes eu escrevia nos cadernos, agora ganham um público ainda maior aqui na internet. Foi pensando nisso, que tomei a iniciativa de publicar o que escrevo na web.

Origem do livro:


O mercado editorial no Brasil é fechado.
Já ganhei prêmios em concursos de redação da Revista Época, do Jornal O Globo (um computador!), publiquei contos em dois livros editados pela Folha Dirigida e Biblioteca Nacional e etc.
Sai em reportagens na Folha Dirigida como a "Jovem escritora..."
Porém nada disso é suficiente para furar o bloqueio, o Firewall das editoras.Decidi que escreveria por amor.Por essa razão, aqui está meu livro online, agora para o acesso livre de qualquer leitor. Afinal, não é preciso ser físico para ser livro.

Contador de visitas?




31.1.07
Seja Bem vindo ao Livro Cada Casa um Caso!
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Comece pelo mês de "agosto de 2006".
Você encontrará os capítulos em ordem decrescente na página que se abrirá, por isso, role a barra de rolagem para baixo e inicie pelo capítulo 1.
A leitura será feita, assim: de baixo para cima.
Após acabar de ler a página com os capítulos do mês de "agosto", acesse o mês de "setembro" no arquivo e assim por diante.


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Este livro continua na sua segunda parte:

www.angelicaforadoparaiso.blogspot.com

Boa Leitura!!!
21.12.06
Capítulo 54: (Ricardo) Final
Quando a gente deixa passar o que é mais importante para a gente, tudo o mais perde um pouco do seu sentido. Sinto nos olhos daqueles que trabalham comigo uma pena que me faz ter piedade até de mim mesmo. Provavelmente agora já sabem da história de amor que Guimarães e minha ex-mulher viveram bem sob meu nariz. Meu amigo me faz uma falta tão grande. Não esse que me traiu, mas aquele primeiro, meu imaculado irmão.

Olhei a cidade lá embaixo, através das frestas da persiana da minha sala. O sol quente do início do verão não me incentivavam a descer, nem tão pouco eu tinha vontade de ir para casa. Lá eu me sentia tão vazio por dentro quanto os cantos da casa onde havia as coisas da minha filha e de Daniela. Digo minha filha ainda, preciso perder essa mania. Ri de mim mesmo.

Ela vai crescer, ser uma menina esperta e ter um ótimo pai. Guimarães cuidará muito bem dela, certamente. Os três estão em Brasília, já mandaram notícias para as pessoas conhecidas contando a felicidade plena que estavam vivendo.

_Seu Ricardo, eu já vou, o senhor quer alguma coisa?_ ouvi a voz mecânica da minha secretária através do telefone.

_Não, pode ir._ respondi e soltei o botão. Fiquei olhando os números, decidi pegar o fone.
_Alô?_ouvi a voz linda de Daniela do outro lado.
_Alô, Dani, é o Ricardo.
_Oi.
_É... Eu sei que deve estar ocupada com os preparativos da viagem, mas eu queria te pedir uma coisa.
_O quê?
_Um café, melhor, nesse calor é melhor um suco, não sei, sentar e conversar, só uma última vez.
_..._ouvi apenas a respiração do outro lado.
_Por favor, eu queria te ver, só te ver, por favor.
_Tudo bem.
_Certo, eu peço para o motorista te pegar, certo?
_Tá._ ela aceitou e parecia que eu acabava de fechar um contrato milionário e dificílimo.
Desliguei e senti uma alegria enorme, incoerente, claro, porque se ela ia embora era para eu estar triste.
De repente pensei, para que o motorista se posso eu mesmo ir? Peguei o paletó e as chaves do carro. Dei tchau para todos com o melhor dos meus sorrisos e percebi os outros se acotovelando e estranhando minha reação.
Antes passei em casa para tomar um banho, fazer a barba e vestir uma boa bermuda e camiseta, porque o calor estava marcando quarenta graus nos termômetros do Rio de Janeiro.
Liguei o som do carro e parti para a casa de Fátima a fim de buscar Daniela. Como é tão estranha essa vida. Ontem eu achava que eu amava minha ex-mulher e que o filho era meu, vivia em uma casa enorme. Depois me culpei por me apaixonar por minha cunhada, quando na verdade Alice fazia o mesmo com meu amigo. Ai eu descubro que a filha na é minha, que eu posso ficar com a mulher que amo mesmo, de verdade e venço o jogo. Esse foi o mal: achar que a pessoa que amava estaria sempre ali, que não precisava cultivar o amor. E para fechar a história eu a perdia. Não dá para acreditar que vá ser assim.
Toquei a campanhia da casa de Fátima e Daniela controlou o sorriso quando me viu para não mostrar que gostara da surpresa.
_Oi, eu preferi vir pessoalmente.
_Tudo bem._ ela fechou o portão.
Dei um beijo na sua bochecha direita para que propositalmente ela sentisse o cheiro do perfume que sempre disse gostar:
_Vamos?_ falei em seu ouvido.
_Para onde?
_Não se preocupe, não vou te seqüestrar, a menos que implore.
Ela riu e balançou a cabeça para os lados. Aquele sorriso valia tudo, tudo de mais importante que existia para mim e se ela continuasse sorrindo assim eu ia chorar. Segurei a dor no peito que antecede a perda e aproveitei minha última chance. Entrei no carro.
Estacionei na orla da praia e propus o melhor dos refrescos para aquele calor: a boa e simples água de coco.
Daniela e eu procuramos um banco e sentamos.
_Não acredito que vá sentir falta disso?_ comentei.
_Do sol de fim de tarde, do céu, das boates, dos bares, da gente, do samba?_ ela riu um riso alto, brilhante, de boca vermelha, meu Deus me dê ar.
_E de mim?_ perguntei.
_Que tem?_ ela largou o coco vazio de lado e desviou seus olhos de oceano para o mar.
_Não vai sentir falta de mim?
_..._ o cabelo dela voava com o vento e acariciava seu rosto._ Eu quero caminhar, vamos?
_...Vamos._ me levantei e me surpreendi com o gesto que ela fez de estender a mão. Pensei por um momento que seria apenas para ajudá-la a descer um pequeno degrau que havia entre o nível do calçadão e da areia, mas ela não soltou minha mão.
Corremos pela areia quente até chegar próximos as ondas espumantes. Molhamos os pés, enquanto segurávamos nossas sandálias na mão.
_Dani?_ Paramos de caminhar e a olhei nos olhos. _ Eu faria tudo diferente se pudesse... Eu preciso disso sabe? Da sua mão, da sua presença, de você. _meus olhos se encheram de lágrimas, eu não queria chorar, mas estava segurando heroicamente aquele nó na garganta.
Ela passou a mão no meu rosto, fechei os olhos.
_Dizem que o fim de ano é mágico, que tudo pode acontecer..._ ela sorriu.
Eu franzi a testa.
_Se você pensar muito forte e desejar uma coisa, quem sabe ela acontece...
_Fica comigo, por favor, fica comigo._ abracei-a e beijei seus cabelos, sua bochecha, encontrei sua boca e a beijei com muita vontade.
_Ricardo..._ ela afastou a boca e ficamos apenas de testas coladas._ Eu não vou mais.
_Quê?_ eu ri, temendo que fosse uma brincadeira.
_Eu já tinha decidido isso há alguns dias.
_Por que não me falou?_ reclamei.
_Eu preciso te contar uma coisa.
_Ai meu Deus... o quê?
_Eu estou grávida.
_Grá-vi-da, Grávida? Você quer dizer, um filho, um filho meu?_ perguntei desconfiado de tanta felicidade, depois das desilusões eu não descartava nem aquela.
_É seu, só seu._ ela sorriu e eu beijei seu sorriso, peguei-a no colo e a girei no ar._ Ricardo eu estou tonta!_ gritou.
_Isso é perfeito._ a pus de novo na areia e eu só conseguia rir de felicidade._ Você não imagina como eu preciso de você...
_Eu imagino, porque também preciso de você. Te amo muito.
_Também te amo tanto, tanto._ abracei-a e nos desequilibramos, caimos na água aos risos.

Fátima estava certa. A vida são caminhos e lá na frente podemos reencontrar aqueles que achávamos ter perdido. Os meus caminhos me levaram um dia até Daniela e me fizeram perder Alice, mas era com Dani que minha história seria escrita. Eu perdi também a filha que achei ser minha, mas hoje eu estava preste a ser pai outra vez.

Daniela e eu fomos muito felizes e tivemos um lindo menino, que por homenagem a mãe chamamos de Daniel. Ele se tornou um homem brilhante, mas a história dele será ele mesmo que vai contar...


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Autora:

Oi, queridos leitores. Foi muito bom partilhar com vocês esse livro. Ele foi destaque na Gazeta dos blogueiros e levou dois troféus. No concurso da Coca Cola fiquei no Top 10 e ganhei uma camisa de prêmio. Mas a maior recompensa era a diária, abrir os comentários e ver que vocês acompanhavam os passos dos meus personagens.

Eu já escrevo desde os quinze anos. Tenho alguns livros que escrevi e encadernei aqui na estante. Mas ficavam limitados ao acesso físico que apenas os amigos próximos podiam ter. De repente, decidi que não esperaria mais uma publicação para atingir mais pessoas. O meu amor se move pelo entusiasmo que os outros comentam o quanto gostaram de uma estória minha.

Sonho um dia ter acesso a uma editora. Já fui a várias delas, mas é praticamente impossível passar por esse firewall. Enquanto não encontro meu QI, vamos nos divertir com a deliciosa estória que se passará depois de 25 anos.

Deixem seu recadinho para mim e seus contatos (url ou email) para que eu possa visitá-los e dar o novo endereço do livro “Angélica fora do Paraíso”.


Li
20.12.06
Capítulo 53: (Daniela)
_Dani?_ senti uma mão no meu rosto. Abri os olhos e vi Fátima sentada ao meu lado na cama._ Você está suando...Está se sentindo bem?
_Não muito. Eu comi um camarão na praia e acho que me fez mal, vomitei tudo._ pus minha mão na minha testa.
_Já falei para não comer essas porcarias na rua. É melhor você ir ao médico e tomar um remédio. Você é alérgica?
_Não precisa..._ fiz pouco caso e senti o enjôo ficar mais forte. Levantei-me em um pulo e corri até o banheiro.
Encostei na parede azulejada e fria depois de colocar o que restava no meu estômago na privada. Respirei fundo e lavei o rosto.
_Eu sei que não vai gostar da idéia, mas chamei o Ricardo para te levar no médico.
_Quê?_ quase engoli a pasta de dente, enquanto escovava os dentes.
_Ele pode pagar uma consulta para você.
_Nem pensar, eu não vou!_ cospi na pia.
_Não seja pirracenta, eu não quero te ver assim.
_Que exagero!_Sequei meu rosto na toalha.
Sentei na sala e senti minha cabeça rodando. Que diabos de camarão foi aquele?
Não demorou muito para Ricardo chamar no portão. Fátima o trouxe até mim e ele parecia mais preocupado do que realmente precisava estar:
_Eu estou bem._ falei fazendo sinal com as mãos para não me tocar.
_Isso eu quero ouvir do médico!_ ele disse._ Vamos! Estacionei o carro em lugar proibido.
_Não...
_Eu disse vamos agora!_ ordenou e eu suspirei. Por fim acabei cedendo.
_Já disse que estou bem... Foi só um..._ meus olhos virão tudo embaçado, anuviado, como se meu cérebro estivesse anestesiado. Meu corpo caiu sozinho.
Ricardo segurou-me:
_Dani!_ pegou-me nos braços, mas eu voltei a tomar noção da realidade outra vez e pedi para me pôr no chão._ Não, fica quietinha._ levou-me até o carro e Fátima nos seguiu.
_Essa menina é uma teimosa!_ resmungou ela.
Na clínica médica, eu pedi para ser atendida sozinha, queria mostrar para eles que eu estava bem e que não precisava de babás, que estavam fazendo uma tempestade sem motivo.
O homem começou a fazer perguntas que nada tinham a ver com o meu prato exótico de camarão na praia:
_Quando foi a sua última menstruação?
Eu emudeci, de repente uma possibilidade veio como um golpe.
_Eu não posso estar grávida, eu vou viajar para...
_Daniela, acalme-se..._ ele estendeu a mão e deu uma tapinha na minha com um sorriso de que sabia algo a mais._ Você fez sexo sem camisinha, ou não tomou pílula...
_Não!_ respondi prontamente e de repente me lembrei da noite da festa, quando me reconciliei com Ricardo._ Quero dizer... Fiz._ respondi baixinho.
_Vamos fazer um teste e...
_Eu não tenho tempo, eu tenho viagem comprada, eu tenho...
_A vida nem sempre segue a nossa agenda..._ ele lembrou-me.
_Por favor, não fale absolutamente nada para ninguém!_ pedi.
_Se você prefere assim._ ele aceitou.
Ao sair da sala encontrei os rostos aflitos de Ricardo e Fátima.
_Eu estou bem, não falei que estava?_ sorri, mas meu rosto não negou minha aflição.
_E o que tinha?_Ricardo perguntou.
_Ah! Foi o que comi no almoço mesmo._ menti e eles engoliram.
Em casa, Fátima não se contentou com minha mudança de humor:
_Você está calada desde que chegou._ sentou-se ao meu lado na cama. Eu estava ali fazia uma hora, olhando fixamente para as malas prontas em um canto do quarto.
_De repente, tudo pode sair dos nossos planos...
_Do que está falando?_ ela não gostava de rodeios.
_O médico acha que eu estou grávida.
_E isso não é maravilhoso?_ Fátima bateu palmas de alegria._ Um filho Dani!Um filho!
Eu sorri, motivada pelo entusiasmo dela, um frio passou na minha barriga.
_Mas eu não posso viajar assim, como vou viver lá sozinha com uma criança? Como vou trabalhar...
_Não vai! Fica aqui, seu Ricardo não suportaria que você fizesse o mesmo que sua irmã.
_Eu não iria querer afastar o filho dele, eu não sou como minha irmã.
_Não, não é... Por isso ele se apaixonou por você. Ele te ama e você também, sabe disso!
_Parece que o relógio parou e as coisas estagnaram, nada vai pra frente, nem para trás.
_Fala como se tivesse que tomar uma decisão, só que não depende de você...
_É..._ respirei fundo e passei toda à noite pensando no resultado daquele exame.
12.12.06
Capítulo 52: (Ricardo)
_ Não vai fazer nada hoje?_ Fátima varreu o chão próximo a cama onde eu jazia.
_Estou cansado.
_De não fazer nada?
_Como de não fazer nada? Eu me matei a semana toda!
_Ah!Sim, é verdade, me referia a ontem que você bebeu o dia todo. Sábado era dia de futebol com os amigos de manhã...
_É..._ não contestei.
_Você vai terminar igual o seu pai._ ela comentou levantando as sobrancelhas e fazendo ar de pesar. Balançou a cabeça para os lados.
_Não vou não!_sentei-me em um pulo, aquilo fora uma ofensa.
_Ora!_ pôs as mãos na cintura. _ Você virou um cachaceiro..._ começou a enumerar nos dedos._Só vive agora pensando em multiplicar dinheiro, já trocou até o carro, já perdeu a mulher que ama...
_Perai, perdi coisa nenhuma...
_Perdeu!_ ela gritou comigo e apontou o cabo da vassoura para minha cara._ As pessoas não são as coisas, que a gente deixa em um lugar e depois podemos voltar para buscar que elas estarão ali!_ explicou-me sem nenhuma delicadeza._ Daniela é uma mulher de ouro, não é uma bolsa de valores, onde você perde aqui e ganha ali na frente, fazendo seus clientes felizes!
_Ah!Não me amola..._ levantei-me e me arrastei até o sofá. Liguei a televisão.
_Agora só faz isso, só vê televisão. Parece um garoto desocupado, na flor da idade.
_Fátima, me dá um tempo!
_Você devia pedir isso à Daniela..._ comentou atrás de mim.
_Ela deixou um bilhete dizendo que não me ama mais, que não agüenta mais ficar ao meu lado. Eu já estou cheio de todos me deixarem...
_A Dani gosta de você sim, ela só não gosta do que você se tornou. Porque você se acabou, se entregou! Nem a barba faz mais...
_Eu já disse, me matei de trabalhar a semana toda e agora quero ficar relaxado, curtindo meu domingo, posso?
_Pode..._ ela deu de ombros e passou um pano na mesa de centro._ Quando disse que deveria pedir um tempo para Dani, é porque ela vai voltar para os Estados Unidos, sabia?
_Do que você está falando...?_perguntei entre os dentes, tentando não demonstrar o quanto aquilo surtira como um golpe.
_Isso mesmo. Ela foi à embaixada ontem... Aquele antigo chefe dela conseguiu uma bolsa de estudos para ela. A menina merece mesmo...
_Onde ela está morando? Na sua casa?
_Para que quer saber, não deu bola até agora...
_Anda, fala!_ levantei.
_É, está lá... Mas não sei se vai encontrá-la lá. Ficou de ir à praia com o Marcos.
_Eles dois estão juntos?
_Estão e acho que ela está mais que certa. Deu bobeira, babau!_ Fátima deu-me uns tapinhas na bochecha.
Procurei a chave do carro no bolsa da minha outra calça. Joguei uma água na cara e abri a porta para sair.
_Vai assim todo desleixado?_ criticou-me.
_..._ olhei-me de jeans e camiseta amaçada._Vou!
Já fiz sinal para o carro abrir a porta ao sair do elevador. Estava com pressa. Liguei o som alto e cantei o pneu no estacionamento.
Como Fátima advertira, eu não a encontrei em casa. Mas esperar não seria tão torturante, aceitei a proposta do filho dela e ficamos vendo vôlei de praia que passava na tv da sala.
Daniela chegou três horas depois, toda bronzeada e rindo sozinho. Parecia ter luz própria. Mas quando me viu esse brilho diminui e o sorriso morreu:
_O que faz aqui?_ deixou a bolsa em cima da mesa e foi até a cozinha, sem a menor cerimônia de me dar às costas.
_Eu vou nessa, cara._ o filho de Fátima deu-me um cumprimento de mãos e saiu.
Caminhei até a cozinha e a encontrei tomando água. Apoiei minhas mãos na pia:
_Soube que você vai embora...
_As notícias boas correm rápido tanto quanto as ruins?_ ironizou e colocou de volta a garrafa na geladeira.
Seu corpo estava lindo, com os pêlos dourados, a calcinha do biquíni visivelmente enfiada entre sua bunda redonda e perfeita, sob o fino short. Ela saiu rebolando e eu entendi que ia ter que seguí-la, se quisesse travar um diálogo com ela.
_Ricardo, para que você veio? Porque se for para dizer que sim, já era._ ela adiantou-se e bateu a porta na minha cara quando entrou no banheiro.
_Você conseguiu uma bolsa de estudos, que bom...
_É. De seis meses. Mas se eu for bem, pode ser que eu fique._ mostrou que estava decidida a ir.
_E se eu dissesse que não queria que fosse?_ falei, quando ela abriu a porta.
_Ricardo, porque você não ouviu quando tantas vezes eu também disse coisas? Disse para você parar de beber, disse para você prestar atenção em mim, que todo dia ficava em casa de esperando feito uma idiota, disse para você se cuidar mais, olha para você? Esse realmente não é o cara que eu conheci. E esse eu não quero. E esse não é o cara por quem valha a pena ficar!
_Obrigado!_ironizei._ Eu me senti péssimo agora. Satisfeita? Eu quero que fique...
_Não percebe? Perdeu seu orgulho próprio._ balançou a cabeça para os lados, entrou no quarto.
_Dani a gente não pode acabar assim...
_Eu não posso me acabar! E não vou!_ Ela abriu uma pasta azul que estava em cima do criado mudo._ Está vendo isso? Minha passagem. Está vendo isso? Meu passaporte. E isso sabe o que é? Sabe o que significa esse papelzinho aqui? Eu posso entrar legalmente lá!_ deixou tudo cair sobre a cama.
_Você não pode fazer isso comigo.
_Eu já fiz. _ falou.
_Dani eu faço qualquer coisa para que fique. Eu amo você, você sabe disso.
_A gente não pode amar só para gente, a gente tem que provar isso todos os dias. E nosso fim não tem nada a ver com aquelas cenas de filme, em que o cara chega no aeroporto e pede para a menina ficar e ela fica. Porque se você resolver aparecer lá, estará perdendo seu tempo, porque eu vou entrar naquele avião.
_Você não me ama?
_..._ ela lambeu os lábios, suspirou, olhou para cima._É, eu amo. Mas antes eu amo a mim mesma.
_Então?
_Então, mude, mude para sobrar algo em você para alguém amar.
_Eu mudo. Mudo o que você quiser!_abri os braços, vencido, rendido.
_Essa mudança leva um tempo, Ricardo e eu não vou estar aqui mais para esperar esse tempo. Agora me deixa sozinha e..._ a voz dela embargou._...Vai embora. Eu tenho um encontro e preciso me arrumar.
Eu tinha que ir, mas minhas pernas perderam a sustentação. Passei a mão na nuca.
_Quando é que eu vou te ver pela última vez?
_Agora... Eu parto daqui a dois dias.
Caminhei até ela e passei a mão no seu rosto, ela não rejeitou:
_Não foi nada fácil para mim. Eu fui traído, eu perdi a filha que nem era minha, eu traí a minha mulher e no meio disso tudo a única lembrança boa foi você. Só não esqueça isso, eu não vou desistir. Se você pensa que vai para lá e vai conseguir me tirar da cabeça, me arrancar do coração, fugir de mim, está perdendo seu tempo, porque não vai._ dei as costas e sai.


***
Chegando em casa, encontrei Fátima se arrumando para ir embora. Estava na sua hora. Ainda dava tempo de chegar em casa e almoçar com a família:
_Deixei uma lasanha no forno para você._ falou.
_Ela está decidida mesmo._ suspirei e sentei no sofá. _ Eu não estou acreditando.
Ela sentou-se ao meu lado no sofá e deu um tapinha no meu joelho.
_Meu filho, a vida é longa..._ ela deu uma risada._... a batalha não acabou. Só que dessa vez você vai ter que esperar.
_Mas eu não quero esperar, eu quero que ela fique comigo. Eu amo aquela mulher.
_Ricardo, nós vamos caminhando por aqui..._ começou a desenhar um caminho invisível na minha perna sobre o jeans da minha calça._ Aí decidimos tomar atitudes que nos levam para cá._ desenhou uma curva._ E não podemos voltar atrás para pegar aquele outro caminho. Você terá que seguir em frente, porque de curva em curva, nós encontramos de novo aquele caminho que deixamos de seguir um dia. Enquanto isso você vai aprender muito a dar valor a algumas coisas, a deixar de dar valor a outras. E tudo que aprender irá te ensinar a perdoar as pessoas...
_Onde está querendo chegar?
_O encontro das pessoas não é à toa. Mas os desencontros, na maioria das vezes somos nós que provocamos...E para voltar a trilhar aquele antigo caminho pode ser que leve muito tempo. Às vezes, leva algumas vidas.
_Lá vem você com esses misticismos, eu não acredito em nada disso. Sou pragmático.
_Tudo bem... Cada um entende de uma forma e talvez isso explique porque uns sofrem de mais angústias do que outros...
_Sua ex-esposa e seu Guimarães se amam, eles estão há muito tempo para se reencontrarem. Não foi de uma boa maneira que isso se deu, mas foi chegada a hora.
_E quando eu vou reencontrar Daniela?
_Ninguém tem essa resposta. A única coisa que sabemos é que não se pode impedir as pessoas de seguirem o caminho que elas querem seguir._ Fátima deu-me um beijo na cabeça e saiu.
11.12.06
Capítulo 51: (Daniela)
_ O que você disse?_ Ricardo havia entendido claramente: Angélica não era sua filha, só faltava cair a ficha.
_Eu não posso ter absoluta certeza, mas ouvi ela uma vez falar para Guimarães que a menina era dele... Eu não sei se aquela louca usou a garota como arma...
_Isso não está acontecendo..._ Ricardo afogou o rosto nas mãos.
_Você disse que sabe dessa história desde quando?_ perguntou.
_Eu um dia fui até a casa de Guimarães e vi os dois juntos... Ela jogou na cara dele que a filha era dos dois. Ele não acreditou, claro. Eu fiquei muito mal. Por isso tudo, terminamos... Eu cheguei em casa muito mal...
_Eu lembro e até fiquei feliz...
_Ãnh?_franzi a testa.
_Eu já estava apaixonado, encantado por você..._ falou com uma voz arrastada, sem qualquer emoção ou sorriso._ Você foi a única coisa boa que me sobrou.
_Não diz isso..._ fiz carinho no seu rosto.
_Eles vão levá-la embora...
_Provavelmente você não terá nada ao seu favor..._ concordei.
_Parece que veio uma avalanche. Minha vida estava tão tranqüila, pacata...
_Você se arrepende de nós dois?_ perguntei.
_Nunca..._ ele franziu a testa e balançou a cabeça para os lados._ Porque quando tudo está no chão e só resta as cinzas, a gente procura os sobreviventes... E eu só tenho você agora para me ajudar a reconstruir tudo...
_Vou sim..._ sorri e o abracei com força.
_Me ajuda a ficar em pé quando o que resta cair na minha cabeça..._pediu.


Ricardo estava preparado para ver seu casamento chegar ao fim, perder seu amigo e até descobrir toda a teia de traições que se engendrava pelas costas dele, mas não podia supor que o golpe final fosse arrancarem o bebê. Alice, possuída dos direitos de mãe, levou Angélica, como havia avisado. Guimarães e ela se casaram e foram morar em Brasília, levando a criança com eles.

Ricardo mergulhou em um ciclo destrutivo, passava horas no escritório e só bebia. Eu estava perdendo-o dessa vez e não era para outra pessoa, mas para ele mesmo. Cansada de ser esquecida nos encontros que eu marcava e ele nunca comparecia, exausta de tentar parecer que as coisas não iam bem entre nós, peguei minhas coisas e fui embora. Para mim não dava.

10.12.06
Capítulo 50: (Ricardo)
Acordei com o som da companhia. Se Fátima tinha a chave, quem haveria de ser aquela hora? Olhei o relógio de pulso, marcavam oito horas da manhã. Levantei-me cambaleante e abri a porta. Meu coração por pouco não parou com o que vi: Alice impecavelmente arrumada:
_Vim ver a minha filha, afinal, ela deveria estar comigo.
_Podia ter ligado...
_...Para ver a minha filha?_ entrou falando alto, olhou a sua volta, fez seu ar de desdém e terminou por encontrar o foco de atenção, a cama onde Daniela estava deitada.
Ela retirou os óculos escuros, caminhou a passos lentos, firmes, sob seus saltos agulhas pele de cobra e não teve a menor cerimônia de puxar o lençol.
_Bom dia, Cinderela!_ falou em voz alta e acordou Daniela, que se viu nua e sob os olhos da irmã.
Tomei o pano e a cobri:
_Você veio ver Angélica, ela está ali!_ apontei para o berço.
_Foram rápidos na minha ausência, não? Carência leva a isso? Ou já rolava antes de eu me ferrar naquele acidente e eu não percebi?_ ironizou olhando para nós dois com ar de superioridade.
_As coisas não são fáceis de serem explicadas..._ Daniela tentou se sintonizar dentro daquele cataclismo que estava por vir.
_Ah! Eu sei que não..._ Alice franziu a testa e usou de todo seu sarcasmo._ Ontem quando eu tentei dizer que não me apaixonei pelo amigo dele por querer, por maldade, ele veio todo cheio de moral... E olha só, na cama com a minha irmã..._ riu e bateu palmas._ Isso é uma tragédia grega, ou um filminho de quinta... Depende de quem conta...
_Eu não aceito que venha até a minha casa dizer o que acha ou não sobre as escolhas que eu faço! Se quer saber, eu me apaixonei sim pela sua irmã. Eu estou com ela agora.
_Ótimo, ficamos quites! Afinal, você se vingou à altura...
_Agora sentiu o que eu senti?_ cruzei os braços.
_Então, você está dizendo que foi por vingança?_ Daniela olhou-me incrédula.
_E você pensou que era o quê, querida?_ Alice reprovou-a com seu tom de maturidade.
_Eu não disse isso..._ consertei e segurei Daniela pelos braços para que não fosse embora, mas ela estava decidida e começou a se vestir rapidamente.
_Eu vou levar a minha filha. _Alice anunciou.
_Você não pode!_apontei o dedo na cara dela.
_Eu posso sim e vou. E tem mais, eu vou sair do Brasil e vou levar ela.
_Não!Não pode fazer isso para me punir! Não pode!_gritei com Alice e quase avancei em cima dela.
_Alice, sai daqui por favor, vai embora. Depois resolvemos isso com mais calma._ Daniela pediu, tomando parte da situação por pena de mim.
_Tudo bem, eu vou, mas eu volto com uma ordem judicial!_ Alice prometeu.
_Não, não..._fiquei desesperado, Daniela não me deixou partir para cima dela.
Alice acariciou a menina e foi embora.
_Que inferno, meu Deus!_ dei um grito e comecei a chorar...Ela não pode! Eu posso brigar, ela é minha filha..._ sentei na beirada da cama.
_Ricardo..._ Daniela ajoelhou-se aos meus pés.
_Eu posso provar que tenho mais direitos como pai, porque eu cuidei da menina, ela é minha filha, minha filha, minha!
_Ricardo... ela não é sua filha..._ Daniela interrompeu-me.
O mundo parou de girar ao meu redor, eu fiquei zonzo, como se tivesse levado uma pancada na cabeça.
9.12.06
Capítulo 49: (Daniela)
Eu esperei que Ricardo chegasse, não queria ir embora antes de vê-lo. Estava deitada na cama e por isso não percebeu quando entrou. Ele deixou a porta bater atrás de si, se arrastou até o sofá e caiu sentado com o rosto enterrado nas mãos.

_Está tudo bem?_ perguntei e fui até ele.
_Você está aí..._ ele disfarçou e limpou as lágrimas dos olhos.
_Está vindo da sua casa?_ suspeitei.
_É. Mas uma tortura diária._ comentou irônico e não quis me olhar, mantendo uma invisível barreira entre nós, lutava para parecer forte.
_Vem cá..._ puxei-o pela manga da blusa e ele veio, entregue, sem relutar._ Eu te amo, meu lindo..._ fiz carinho no seu cabelo e o envolvi com meus braços.
_Obrigada por você existir..._ ele sorriu e beijou minha mão várias vezes.
_Conta para mim...
_Não vale a pena._ fez pouco caso.
_Não vai mudar nada, mas pode te deixar mais leve..._ insisti.
_Ah... Eu acabei falando para ela tudo...
_Tudo... Tudo o quê? O médico não havia dito que...
_Não... não... ela se lembrou já... quando eu cheguei estava cheia de fitas de vídeo sobre a cama, tinha assistido...
_Ai, meu Deus, e aí?
_E aí que eu disse tudo que estava entalado na minha garganta.
_O que você disse, Ricardo?_ olhei-o de lado, receosa do que ouviria.
_Ah... Eu falei mesmo... falei que foi um golpe pra mim saber que ela me traia com meu amigo, enquanto nós éramos casados._ Ricardo deixou bem claro ali que não se sentia mais ligado a Alice de nenhuma maneira, apesar da aliança ainda esquecida no dedo._ Eu deixei bem claro que não tem como perdoar a traição dela...
_E a nossa, ela perdoou? _ franzi a testa.
_Não falamos disso...
_Hum, você não contou.
_Não..._ Ricardo ficou cutucando o botão da minha blusa, com o pensamento solto no ar.
_Por um lado, se eu pudesse, não teria vivido nada disso, porque é um peso carregar a culpa de ter traído alguém. Queira ou não você traiu sua esposa e eu a amizade da minha irmã. Mas ao mesmo tempo isso tudo me levou a conhecer você de outra forma. E eu estou perdidamente apaixonada e não posso negar isso. Fico muito feliz ao seu lado. Os dias que ficamos brigados foram muito ruins para mim...
_Para mim também..._ interrompeu.
_... Parecia natural que nós estivéssemos sempre bem.
_Eu sei como é..._ ele sorriu e levantou o rosto para me dar um beijo, sempre com a mão debaixo da minha nuca._ Eu não quero nunca mais que a gente fique longe..._ confessou e aumentou a velocidade do beijo._ vem..._puxou-me pela mão e caminhamos até a cama.
A noite foi deliciosa como todas, mas a visita que recebemos pela manhã eu não posso dizer o mesmo.
7.12.06
Capítulo 48: (Ricardo)
Frente a frente com Alice eu não tinha palavras, nem movimentos. Olhei-a e senti pena, nada além. Tinha a pele branca como a morte, olhos fundos, os dedos tortos e uma magreza que a tornava ainda mais frágil. Dei alguns passos até ela.

_Você é..._ perguntou ingenuamente e aquilo me acertou como um soco no estômago. Os olhos se encheram de lágrimas.
_Não chore, por favor..._ ela tocou minha mão e viu a aliança._... Desculpe...
_Tudo bem..._ balancei a cabeça para os lados, não queria forçá-la a nada.

Puxei uma cadeira e sentei.

_Me fala sobre nós..._ ela pediu e recostou a cabeça no travesseiro.
_Nós fomos felizes..._ falei olhando para minhas mãos.
_E eu...?
_...Você?_ encarei-a e fiquei em silêncio._ Não sei se faz bem você ficar tentando se lembrar...
_Fui tão ruim assim?_ franziu a testa.
_Um dia te conto tudo..._ forcei um sorriso.

Contratei um batalhão para colocar a nossa antiga casa em ordem e florida para quando ela chegar. Deixei-a de volta em seu quarto, sozinha. Uma vez por dia eu a ia visitar. No terceiro dia, a encontrei com o rosto enterrado nas mãos, ajoelhada sobre a cama. Reparei na televisão ligada e nas capas dos DVDs sobre a colcha. Eram gravações do nosso casamento, das festas que dávamos. Tive medo de entrar e encará-la. Podia da soleira da porta dar passos atrás e sumir. Mas esse encontro era inevitável.

Caminhei vagarosamente até ficar em sua frente e ela levantou o rosto:

_Ricardo..._ chamou-me pelo nome de um jeito seu._ Eu vi tudo e lembrei...
_Lembrou? De tudo?
_..._ ela balançou a cabeça em sinal de sim e limpou a bochecha com as costas da mão.
_Eu também nunca vou poder esquecer..._ falei friamente._ Nem vou poder perdoar.
_Desculpe..._ ela começou a soluçar.
_Tá vendo esse cara aqui?_ apontei para a tela da televisão, onde Guimarães aparecia brindando comigo._ Ele era o meu melhor amigo. Está vendo essa aqui?_ indiquei com o dedo para ela se ver vestida de noiva._ Essa é a vadia que deu para o meu amigo. _ falei entre os dentes.
_Não fala assim...
_Não? Como eu chamo, então? Como eu chamo isso que fizeram comigo?Ãnh? Traição? É uma palavra pequena demais para explicar como me senti, quando soube que vocês viviam pelos cantos trepando na minha cara!_ berrei perto do rosto dela. Puxei seu cabelo da nuca para que me olhasse nos olhos._ Você não sabe o quanto eu convivi com você com pena de te deixar, mas eu não sei como tolerei um dia ao seu lado!
_Eu não sabia como te contar...
_Era só ter contado, que eu te chutaria daqui...
_Eu não queria que a gente terminasse assim se odiando...
_E como imaginava?!_ coloquei as mãos na cintura, tentando manter a calma._ Que eu fosse padrinho do casamento dos dois e levasse a aliança.
_Se me odeia tanto, porque me trouxe para cá?
_Eu não te odeio._ consertei com a voz gélida._ Ódio é um sentimento muito forte, digno apenas das pessoas que têm importância. Você é indiferente. Uma qualquer.
Alice virou o rosto para o lado, como se tivesse levado uma bofetada com minhas palavras.
_Eu te trouxe para cá, porque essa casa é aquilo que você sempre gostou. Você cuidou dela mais que a mim, ela é seu castelo. Pois então durma no seu palácio sozinha._ dei dois passos atrás e bati a porta.
Capítulo 47: (Daniela)
_Quê?_ sentei-me na cama._ Alice acordou?_ assustei-me com a notícia.
_O médico acabou de me falar. Eu vou ao hospital, você vem?
_Claro!_respondei prontamente._ Você não parece tão entusiasmado._ comentei e refleti se isso era porque pensava que ela poderia nos separar.
_Estou, claro. Mas ela me decepcionou muito..._ ele falou em voz baixa, balançou a cabeça para os lados e levantou-se com o telefone na mão. Discou um número._ Vou pedir para Fátima vir o mais rápido possível...
_Então, eu vou tomar banho._ procurei meu vestido no chão._ Como eu vou ao hospital assim? Fala para a Fátima trazer uma roupa para mim!_ pedi.

Enquanto a água caia na minha cabeça, eu me perguntei se Alice me perdoaria pelo fato de Ricardo agora saber de tudo. Se bem que isso era menor, em comparação a eu ter dormido com o marido dela! Senti-me tão mal com essa situação. Eu gostava muito dele, ao mesmo tempo esse sentimento se misturava com uma enorme culpa. Ela poderia pensar que fora por vingança, para dar o troco, ou coisa do gênero e não foi assim que tudo se sucedeu. Aliás, nem eu sei como eu entrei naquela casa e vim parar na cama dele. Parece que as coisas ocorreram naturalmente...

Eu também não era a vilã da história sozinha, ela traíra o marido muito antes dele. O que não justifica termos nos apaixonado na ausência dela. Ai, como o coração pode ser tão complexo? Queria que tudo fosse mais simples, que eu entrasse em uma padaria, cruzasse com Ricardo e a gente se conhecesse de maneira trivial. Talvez não levaria a nada. Será então que eu me envolvi tanto justamente por ser proibido? Faz sentido, mas não melhora.

Estavam mais tensos e ansiosos que propriamente felizes no trajeto até o hospital. Tudo certamente estava para mudar e isso me tirava a paz. O médico nos guiou até o quarto onde ela se encontrava e antes de abrir a porta nos alertou que poderia não se lembrar de nós, porque estava ainda se recuperando ainda.

Alice estava sentada diante da bandeja de café da manhã. Seus olhos inspecionaram Ricardo e eu e pareceram não nos reconhecer, perguntou ao médico quem éramos. Ele respondeu que eu era sua irmã e que aquele era seu marido. Ao denominar assim nós dois, novamente senti-me intrusa no universo dos dois. Eles voltavam a ser o casal.

Ricardo não se aproximou, nem fez gesto algum de carinho ou afeto. Era uma estátua sólida e reflexiva, com mãos nos bolsos e um semblante de desgosto pétreo. O médico percebendo isso lhe informou que poderia se aproximar, mas ele não o fez. Pedi, então a ele que saíssemos e deixássemos Ricardo a sós com Alice. Do lado de fora da sala, o médico comparou a manifestação de Ricardo com a de um homem que viera visitar a paciente.

_Guimarães?_ franzi a testa.
_Isso, era esse o nome. Ele insistiu muito para vê-la e ela o reconheceu. Ele me explicou toda a história... E me implorou para entrar...
_Agora estamos em uma situação difícil..._ comentei.
_Não devem pressionar para que ela dê respostas, deixe isso para depois.
_Claro..._ concordei.
_Mais alguns dias e ela receberá alta para voltar para casa.
6.12.06
Capítulo 46: (Ricardo)
Deixei Daniela esparramada pelos lençóis e procurei o telefone pela casa. Onde eu havia largado? Ah! Achei embaixo da almofada, em cima do sofá. Disquei o número do escritório, enquanto a olhava adormecida e bela, com um semblante de paz.

_Alguém me ligou?_ perguntei.
_Ligaram do hospital!_ ela lembrou-se com uma voz sobressaltada._ Parece que são notícias sobre sua mulher.

“Sua mulher”, aquela denominação me era já tão estranha.

Imediatamente procurei saber o que havia de novidade e liguei para o médico no celular dele. Identifiquei-me e expliquei qual o caso de Alice.

_Senhor Ricardo, tenho ótima notícias! Toda a equipe está entusiasmada com o quadro. Alice está despertando...

Meu coração disparou e eu perdi a voz, a ação. Torci muito para aquele dia chegar e de repente não me vi preparado para ele.

_Ela não reconhece ainda as pessoas, está recuperando aos poucos os movimentos... Senhor Ricardo, está me ouvindo?_ o homem chamou-me a atenção do outro lado.

_Tô sim, é que é difícil acreditar.
_Você vem vê-la?
_Vou. Estou indo para aí._ desliguei.

Eu deveria correr, pegar o carro, voar para lá, mas minhas pernas continuaram paradas.

_Vem para cá..._ ouvi a voz doce de Daniela.

Caminhei até a cama, sentei e acariciei com a ponta dos dedos sua bochecha rosada.

_Eu conheço essa cara... O que foi?_ ela franziu a testa.

_Sua irmã acordou...