30.11.06

Capítulo 44: (Ricardo)

Eu não estava com muita vontade de ir à festa que Steven havia me convidado. Em outros tempos seria fora de cogitação, eu preferiria ficar em casa e descansar. Mas existia uma motivação que me fazia cair na dúvida cruel: Daniela iria ou não?

_Fátima?_chamei-a atenção, enquanto a via dar mamadeira para Angélica._ Hoje você vai ficar por aqui? Eu tenho uma festa para ir...

_Posso ficar sim._ ela não se incomodou com a idéia.

_Você sabe se..._ procurei palavras, mas não consegui ser menos objetivo: _ a Daniela vai sair hoje? Porque ela também foi convidada para...

_Você quer saber se ela vai à festa, ou se ela vai com alguém?

_Com quem ela iria?_ franzi a testa e logo me lembrei do tal amigo que chegara a pouco no Brasil.

_Ricardo, eu não sei._ Fátima levantou do sofá e foi levar Angélica para dormir.

Estava querendo restringir-me às informações, deixando claro que não me perdoava por nossa separação.

Na última hora, dei um pulo do sofá e decidi que iria.

Dei a chave para que estacionassem meu carro e subi as escadas do hotel de luxo, onde estava sendo dada a festa. Conferiram meu nome na lista e eu andei pelo salão com as mãos no bolso. Não conhecia ninguém e provavelmente Dani também não, será que isso seria um motivo para ela ficar em casa?

_Ela vem?_ ouvi uma pancadinha no meu braço. Olhei para o lado e logo reconheci pelo inglês Steven. Estava segurando seu copo de bebida, espremido dentro do terno, com sua grande barriga redonda. O pescoço curto parecia sufocado pelo colarinho envolto com uma gravata borboleta. Sua careca molhada de suor ele limpou com um lenço.

_Como está?_ cumprimentei-o e sorri. Peguei um copo de bebida na bandeja do garçom que passou por mim.

_Eu pedi para ela me ajudar aqui com alguma tradução. Mas sabe que não é bem para isso..._ ele falou rápido demais e não pude entendê-lo perfeitamente. Ele chamara Daniela para quê?

_Você está ansioso..._ comentei.

_Amigo, eu não jogo para perder..._ Ele deu uma risada alta e eu saquei tudo por ali, não precisava de tradução, o faro para a concorrência no nosso território é algo que está no instinto animal do homem._ Olha ela ali..._ ele apontou com o dedo indicador da mão que segurava o copo.

Virei-me e meus olhos se encontraram com os de Daniela. Ela estava linda, com um vestido azul piscina combinando com seus olhos. O cabelo quer era liso estava cacheado àquela noite, caindo pelos ombros nus e a boca de um vermelho cereja que me fez sentir o coração disparar.

Steven adiantou-se para cumprimentá-la e eu só ganhei um sorriso e mais nada. Nem ao menos um toque. Poderia fazer qualquer comentário, mas nem tive tempo, pois ele foi mais rápido e a tirou para dançar.

Senti-me como se alguém estivesse me colocando para trás e aquilo começou a me trazer uma mistura de tristeza e raiva. Virei o copo de bebida e engoli de uma só vez.

_Oi, gatão..._ senti um beliscão na minha bunda e me deparei com uma velhinha muito serelepe, balançando-se ao som da música._ Não quer dançar?

_..._ eu não sabia como negar-lhe isso, afinal, poderia parecer uma falta de educação.

Olhei para frente e vi que Steven apresentava Daniela para um casal. Será que ela não via que o chefe a estava usando? Me senti na obrigação de tirá-la dessa roubada, mas como?

_Eu estou esperando uma oportunidade de dançar com aquela ali..._ indiquei Daniela para que a senhora a localizasse. _ Mas o pai dela não a larga. Sabe como é... Um cinquentão milhionário, sozinho..._ comentei coçando o queixo._ A senhora podia me ajudar...

A mulher riu e parece que gostou da troca. Tirei-a para dançar e nós ficamos a uma certa distância. Meus olhos se encontraram com os de Daniela e ela me pareceu séria demais. Senti que o que Steven lhe falava no ouvido não lhe agradava. Foi nesse momento que eu entrei em cena e o cutuquei.

_Podemos trocar?_ pedi e ele não gostou nada, mas como cavalheiro cedeu espaço e começou a dançar com a senhora. Daniela em vez de segurar a mão que lhe ofereci passou direto por mim e esbarrou em um outro casal. Pedi desculpa por ela e a consegui alcançar em um corredor paralelo ao corredor. _Espera...

_A festa para mim acabou..._ ela continuou andando rápido, aos pulinhos para se equilibrar no salto._ Me deixa.
_Não..._ puxei-a pelo braço com força e ela me negou os olhos, segurei seu rosto.
_Vou pedir um táxi.
_Eu te levo em casa. O que ele te disse que te fez ficar assim? _ perguntei com vontade de ir até Steven e tirar satisfação._ O que ele te propôs?
_Não foi isso... Ele falou umas coisas.
_Que coisas?!_ perguntei alto, perdendo o controle.
_Tudo foi armado! Tudo!_ ela olhou-me com seus olhos grandes e azuis._ O Guimarães pediu para que eu trabalhasse com ele, porque ele sabia que você acabaria se esbarrando comigo...
Então, ele tentou me ajudar?, pensei comigo, sem interrompê-la.
_E o Steven queria saber se eu ia ainda ficar te esperando porque ele... O que eu estou te fazendo contando essas coisas? _ ela balançou o rosto para os lados e saiu.

Eu fiquei olhando para a parede à minha frente, onde havia um quadro de uma paisagem tropical e tentei digerir aquilo tudo.

Sorri e tive um impulso, corri atrás dela, mas quando a vi, estava entrando em um táxi. Me joguei na frente e fiz sinal com os braços para o motorista, que já xingava todas as minhas gerações.

_Eu já vou levar essa senhora..._ ele não entendeu porque eu estava tentando abrir a porta de trás.

_Destrava essa porta agora!_ ordenei e ele balançou a cabeça para os lados irritado, por fim desistiu e apertou um botão para as portas se abrirem.

Tirei a carteira do bolso e dei dez reais na mão dele:

_Eu fico com a passageira._ expliquei e puxei Daniela pelo braço, que relutou, mas por fim saiu do carro arrastada por mim.

O táxi partiu e ela olhou para os lados, sem saber o que lhe iria acontecer. Pareceu com medo, se desequilibrou do salto e deu dois passos atrás.

_Você está maluco?_ ela tirou o cabelo que estava em seus lábios empurrado pelo vento.

_..._ sorri e me aproximei, senti que eu já não podia mais me conter. _ Fazia um tempo que eu estou louco de vontade de fazer isso..._ beijei-a na boca e a envolvi com meus braços. Ela resistiu um pouco, mas por fim retribuiu-me com carinho e os lábios carnudos me receberam com a vontade que eu desejava._ Passa essa noite comigo?_ falei em seu ouvido, sentindo o perfume do seu pescoço.

_Só essa noite?_ ela riu e chupou o lóbulo da minha orelha esquerda, fazendo todo os meus pêlos se eriçarem.

_Essa e todas as outras._ fui vencido por aquela mulher mais uma vez.

26.11.06

Capítulo 43: (Daniela)

_Um brinde ao sucesso do nosso acordo!_ Steven levantou a taça no ar motivando a mim e Ricardo a fazer o mesmo. Nós tínhamos realmente conseguido uma ótima negociação com uma grande empresa de jornal para que ela comprasse o papel das fábricas para qual ele trabalhava.

Depois da reunião cansativa e desgastante a que nós nos submetemos, foi muito merecido o almoço.

Ele pediu licença para ir ao banheiro e Ricardo e eu ficamos sozinhos à mesa. Um silêncio muito desconfortável entre nós pairou no ar. Aquele clima incômodo. Nem tinha como me concentrar na comida, porque já havíamos terminado. Passei o dedo no copo suado pelo gelo e guardei um meio sorriso nos lábios.

Meu telefone tocou, naquele momento em que eu torcia para ser salva pelo gongo.

_Alô, Marcos?_ reconheci o número no identificador. Ele perguntou se eu tinha a tarde livre. Aquela resposta era complexa. Se eu respondesse que sim, Ricardo subentenderia que eu estava sendo muito rápida em fazer a fila andar. Se eu negasse, poderia achar que eu ainda estava ali sofrendo e me lastimando por tudo que ocorrera, como se ele fosse a mola motriz da minha existência. Por outro lado, se eu parecesse estar marcando qualquer encontro, ao mesmo tempo, estaria dando um passo atrás em qualquer possibilidade de me reconciliar com ele. Sendo que valia a pena eu deixar de encontrar meu amigo por alguém que eu não sabia mais medir as reações?

Salva pelo gongo pela segunda vez. Steven chegou e eu dei uma desculpa para Marcos de que estava no trabalho e que logo retornaria. Ah! Que ótimo, agora sim ficara claro que eu estava fugindo de Marcos. Ai, eu tenho que parar com essa paranóia de ficar calculando o que Ricardo iria pensar.

_Eu vou aproveitar e vou ao banheiro também._ Ricardo levantou-se e eu não perdi a chance e num impulso pedi licença para Steven e retornei para o número do Marcos.

Perguntei se ele poderia pegar o carro do irmão para vir me buscar, já que sua casa era muito perto dali. Passei-lhe, então, o endereço do restaurante, muito conhecido no centro da cidade. Antes que Ricardo se aproximasse da mesa de volta, desliguei.

_Bom, eu não quero ocupar muito os dois, já que eu prometi dar a tarde livre para vocês, mas eu esqueci de dizer que teremos uma festa para ir e eu preciso da minha tradutora..._ sorriu para mim, já meio alto com a bebida._ E quero que você vá como meu convidado. Pode levar sua esposa também..._ ele reparou na aliança ainda no dedo de Ricardo.

Ricardo abaixou os olhos e se restringiu a sorrir. Perguntei sobre o que era a festa e ele disse que seria em um hotel de luxo para grandes empresários, enfim, queria na verdade era companhia, para não se sentir perdido.

Ricardo e eu em uma festa de gala? Era impressão minha, coisa da minha cabeça, ou o destino estava querendo nos unir outra vez?
Peguei minha bolsa e despedi-me.

_Dani...Daniela?_ a voz de Ricardo atrás de mim me fez virar. _Esperando um táxi?

Será que ele quis fazer a pergunta: “esperando alguém?”
_Não..._ traguei o cigarro entre os meus dedos.
_Você agora está fumando?
_E você agora está se preocupando comigo?_ rebati.
_Só nunca te vi fumar...
_É. Eu fumava. Parei. Voltei.
_Não faz bem.
_Tem muitas outras coisas que também não fazem bem._ dei outra tragada.

Ele me olhou por uns segundos e depois se lembrou de o porquê haver me chamado.
_Eu queria te agradecer por ter me ajudado com minha filha, eu não sabia como agir.
_Tudo bem, eu fiz por ela._ falei secamente.
_Claro..._ ele olhou para mim e percebi que estava assombrado, não me reconhecendo.
_Como está Alice?
_Está bem. Quero dizer, estável...
_Eu não sei como isso foi nos acontecer...
_Isso o quê?_ ele perguntou, acho que querendo saber se eu me referia a nós dois ou ao acidente de Alice, na verdade eu falara mesmo da minha irmã.

_Dani?!_ ouvi uma voz me gritando. Olhei para lado e Marcos veio correndo para me abraçar, feito um adolescente maluco. Eu ri. _Oh, meu Deus, que maravilha, hen?!_ me olhou galanteador.

_Deixa eu te apresentar, esse aqui é o...

_Esse eu conheço, é seu cunhado. Ele não sabia onde você morava..._ Marcos jogava com as palavras e as oportunidades como um mestre no pôquer da vida.

_Bom, eu não quero atrapalhar o reencontro de vocês._ Ricardo usou uma certa ironia na voz e apertou o chaveiro para o carro abrir.

_Eu disse alguma coisa que ele não gostou?_ Marcos percebeu.

_Deixa para lá..._ pedi e o olhei direito. Estava forte, malhado, bronzeado, um galã de hollywoodiano, como sempre fora. Acho que minha tarde seria muito prazerosa.

Entrei no carro e tudo que eu conseguia pensar, enquanto Marcos me contava os motivos da sua volta ao Brasil, era o que Ricardo estava achando do que vira. Será que eu lhe incomodara com a presença do meu amigo? Eu esperava que sim, afinal, nada seria mais insuportável que a sua indiferença. Pena que o poder de ler a mente dele eu não tinha.

21.11.06

Capítulo 42: (Ricardo)

O meu novo apartamento era tudo o que eu sempre quis. Já desde de que meu pai morrera eu tinha vontade de sair daquela casa, de ter um lugar pequeno em que tudo lembrasse o que eu era, o que eu gostava. Mas aí chegou Alice na minha vida e pronto, tive que interromper meu desejo. Ela amava aquela casa enorme e com todo cuidado e dedicação redecorou tudo. No final, cada canto lembrava a ela e o que ela gostava. Eu era o inquilino.

Com a saída de Daniela de lá, eu me senti um fantasma assombrando aqueles corredores, perambulando sozinho e infeliz. Por isso, decidi alugar um apartamento em forma de estúdio. Era grande, iluminado, praticamente sem paredes. Havia um espaço para o sofá, a televisão e meu som, outro para a cama e outro para meu escritório particular, tudo com muita simplicidade e praticidade. Chamei uma especialista para me auxiliar na mudança e dar a harmonia ao meu projeto.

O apartamento tinha o teto alto, janelas enormes e sem cortinas, que davam para ver a cidade se movimentando lá embaixo. Minha filha ficou com um canto todo decorado para ela, com brinquedos, almofadas, bichinhos e tudo que fosse necessário para que ela tivesse seu espaço no meu mundo, que agora era seu também.

Fátima vinha todos os dias cuidar de tudo para mim, mas justamente hoje, me pedira folga para resolver alguns compromissos pessoais. Angélica parece que escolheu o pior dia para não ficar bem. O que iniciou como um choro, começou a me preocupar. Decidi ligar para Fátima e saber o que fazer. Ela me garantiu que veria como podia chegar até aqui à tempo.

Coloquei Angélica no colo e caminhei com ela por todo apartamento. Eu estava impaciente, sem saber de que modo resolver isso. Rezei para que Fátima não demorasse muito. Quando a campanhia tocou, eu senti uma descarga elétrica de alívio percorrer todo o corpo. Parecia que eu estava à espera de um messias.

Abri a porta e não era Fátima.

_Oi._ Daniela sorriu sem graça.
_Oi._ Franzi a testa._ Eu liguei para a Fátima...
_E ela me ligou dizendo que não poderia vir de jeito nenhum e me pediu que corresse para atender um “pai em apuros”._ironizou e pegou Angélica do meu colo.

Fechei a porta e pus as mãos na cintura.

_Minha menina, linda, tá tão quentinha, vamos espantar essa febre, vamos?_ Daniela sentou no sofá e retirou a roupa da minha filha, que estava aos berros._ Como você é chorona, não é forte igual a titia, tsi tsi..._ conversou com a criança._ Onde está a banheira?_ perguntou e olhou ao seu redor o apartamento pela primeira vez.

_Está no banheiro._ disse e apontei com o dedo para a esquerda.

Ela, então, caminhou com Angélica para lá e pediu que eu ligasse para o hospital e marcasse uma consulta com o pediatra, enquanto tentaria abaixar a febre com um banho.

_Claro._ atendi prontamente e peguei o telefone. Eu me sentia mais tranqüilo agora sabendo que algo estava no controle daquela situação.

Depois de duas horas, estávamos de volta ao apartamento com os remédios comprados, fora só uns dentes aparecendo e pertubando a minha filhinha.

Daniela deixou-a no berço e a ninou até que dormisse. O telefone tocou e eu fui atender, eram problemas no escritório. Comecei a explicar a minha secretária os procedimentos que deveria tomar. Enquanto isso, vi que Daniela se aproximou da porta, antes de sair, virou-se e olhou-me. Acenou com uma mão e deu um sorriso contido. Ao olhá-la, não conseguia prestar atenção em nada do que a mulher do outro lado do telefone dizia.

Ela estava tão linda, como sempre foi, de cabelo solto, de olhos azuis pintados, de boca vermelho sangue, ainda mais intensamente atraente. Eu podia largar aquele aparelho e correr para puxá-la, abraçá-la, beijá-la, ajoelhar-me e agradecer a tudo, por ela existir, por ela me ajudar com minha filha, por ela ter me dado sentido a vida... Mas era uma vontade, sem braços, sem pernas. E ela se foi, fechando a porta atrás de si.

_Senhor Ricardo, está me ouvindo._ perguntou a voz no meu ouvido.
_Sim, estou.

20.11.06

Capítulo 41: (Daniela)

Eu estava com um nervosismo a me consumir na sala de espera. Nem conseguira tomar café da manhã direito. Sou assim, quando algo importante está para acontecer, não sinto nem fome.

Era minha grande chance de conseguir um bom emprego. E lá estava eu à altura da proposta, completamente alinhada: maquiagem, terninho, salto de bico fino, cabelo escovado e os nervos em frangalhos.

Não sei se a oferta do café pela secretária foi por uma gentileza, ou por ter percebido que eu estava batendo demais meu pé no chão. Agradeci com um sorriso, constrangida.

Simplesmente tudo tinha que dar certo para eu conseguir essa vaga para qual Guimarães me indicara. Pelo que me explicou, eu iria fazer quase o mesmo que quando era sua secretária. Só que em vez de ajudar com o inglês, iria justamente auxiliar meu futuro chefe com o português, pois o empresário com o qual eu estava esperando para falar era canadense. Ele ia ficar no Brasil para intermediar os escritórios daqui com as fábricas de papel no Canadá.

O homem me olhou de cima abaixo, quando entrei na sala, anunciada por sua secretária. Seu sorriso deve ter sido um sinal de aprovação mais que de boas vindas. Eu lhe apertei a mão firmemente e me sentei. Ele disse que se chamava Steven e o assunto que se desenrolou a partir dali não me pareceu uma entrevista e sim uma explicação do meu futuro papel. Eu fiquei bem mais tranqüila com isso.

Pelo que eu entendi, eu seria sua sombra, iríamos para todos os lugares juntos. Calculei que isso iria representar um gordo salário e fiquei ainda mais entusiasmada. Na altura do campeonato eu estava topando qualquer coisa, precisava arrumar definitivamente a minha vida. Não queria ficar morando na casa da Fátima, dando-lhe despesa. Em breve, alugaria um apartamento para mim, mesmo que bem pequeno.

Ele me perguntou se poderíamos começar naquele momento e eu respondi com muita motivação que com toda certeza. Steven apertou um botão no telefone e perguntou à secretária se alguém o esperava. Mediante a resposta positiva, pediu que entrasse.

_Você deve ser o Ricardo?_ Steven perguntou assim que a porta se abriu e eu virei-me assustada.

Ricardo ficou nitidamente branco e eu senti um frio na barriga, perdi a fala. Aquilo só podia ser uma pegadinha. Guimarães premeditara que esse encontro poderia ocorrer? Se bem que ele deve ter conhecido o Steven por algum contato da empresa de Ricardo...

_Fale para ele que você será minha tradutora. _ Steven pediu-me e eu tentei recuperar minha sobriedade.

_É..._ respirei fundo._ Prazer, senhor Ricardo._ estendi a mão e ele fez o mesmo e a tocou. Me odiei por isso, mas tenho que confessar, meu coração disparou e eu fiquei nitidamente com as bochechas queimando, contive o sorriso no canto da boca. Ai, como eu podia dar aquela bandeira?! Tudo só por um aperto de mão?! Eu quero morrer._ Eu sou a tradutora do senhor Steven e vou mediar a conversa. Pode se sentar..._ estendi a mão indicando a cadeira.

Ricardo abriu um sorriso lindo e balançou a cabeça levemente para os lados. Eu me constrangi. Quê? Ele estava por acaso debochando de mim?

_Então, senhor Ricardo, eu pedi que verificasse todos os documentos e também fizesse os balanços..._ Steven parou de farar, para que eu pudesse traduzir. Eu usei uma voz mecânica e imparcial, para que eles não dessem muito por conta de que eu ali estava.

_Pode me explicar o que significa isso?_ Ricardo perguntou em português, visto que Steven não entenderia.

Fui obrigada a olhá-lo, contra minha intenção, que era de me fixar apenas em algum ponto da parede e fingir que não existia.

_..._ não sabia o que responder. Imagino que estava se referindo aquele acaso do destino, mas me fiz de desentendida e repeti a frase de Steven, só que em inglês e não em português, balancei a cabeça para o lado, fechei os olhos e respirei fundo. Pedi desculpa, vendo que Steven percebera que algo não ocorria bem._ "Então, senhor Ricardo, o senhor Steven pediu que verificasse todos os documentos e também fizesse os balanços..."_ traduzi em português para Ricardo.

Steven continuou falando e eu traduzindo automaticamente e esse processo se arrastou por uma interminável hora. Na despedida, Ricardo apertou minha mão, como que por educação e saiu. Aquilo me caiu muito mal, bateu uma tristeza. Tudo o que vivemos resultou nessa indiferença?

_Ah! Droga, esqueci de perdir-lhe uma coisa..._ Steven ficou irritado com algo._ Você poderia chamá-lo? Ele não deve ter saído ainda do prédio.

Foi o melhor pedido que eu recebera até agora. Abri a porta e alcancei Ricardo no corredor, à caminho do elevador:

_ Espera!_ pedi e ele se virou para mim, que chegava um pouco ofegante à sua frente. Retirou os óculos escuros, na expectativa que eu fosse falar algo revelador.

Eu tinha muitas coisas a dizer, mas não podia deixar meu coração se manifestar, senão, acabaria lhe falando que eu sentia muita saudade, que ficara muito magoada com a maneira com que me tratou, porém até entendia que estava se sentindo enganado.

Ele estava diferente, o cabelo raspado, o rosto mais magro parecia agora perfeitamente triangular. Enquanto o observava, meu telefone começou a tocar no meu bolso de trás. Atendi:

_Alô?
_Daniela? É o Marcos.
_ Marcos?_ franzi a testa, não tinha "pior" hora para ele me ligar?
_É. Lembra que você deixou uma mensagem no meu celular ontem? Então, eu estou te retornando para...

Ricardo virou-se para ir embora, mas eu segurei-o pela mão.

_Espera..._ pedi e ele olhou para nossas mãos e depois para mim. Voltei minha atenção para o telefone._ Marcos, eu estou agora no trabalho, não posso falar, na hora do almoço te ligo, tudo bem?_ pedi.

_Claro, desculpe._ Marcos desligou e eu guardei o celular no bolso outra vez.

Soltei minha mão da de Ricardo.

_O Steven esqueceu de lhe dizer uma coisa... Você pode me acompanhar?_ pedi.

_Claro._ ele seguiu ao meu lado de volta à sala.

Quando Ricardo foi embora definitivamente me perguntei se haveria possíveis encontros como aqueles. Ficou um vazio muito grande. Eu ainda estava mais ligada a ele do que calculava. Era no afastamento que eu me dava conta da intensidade de tudo o que vivemos. Não era possível que ele só guardasse rancor por mim e não enxergasse que eu estava respeitando o juramento que fizera com minha irmã e que tinha sido ela a traidora.

18.11.06

Capítulo 40: (Ricardo)

O álcool me tirou a força das pernas, a sobriedade da cabeça, que mais parecia uma caixa de vidros quebrados chaqualhando. Fiz uma careta de dor, deitei no sofá, recostado entre almofadas e me veio aquele rosto inimigo à mente. Não podia esquecer o homem que batera à minha porta essa manhã, quando eu já me preparava para sair para o trabalho.

Vestia um jeans e uma camiseta que mostrava o braço tatuado com um símbolo japonês. Perguntei-lhe um tanto curioso o que queria e a reposta que obtive me fechou o sorriso na cara e a receptividade do meu coração:

_Não, ela não mora mais aqui._ informei-lhe rispidamente, assim que entendi que ele vinha procurar por sua “muito amiga Daniela”. Não se deu por vencido e me lembrou ser eu o cunhado._ Não sei para onde ela foi. Agora, você me dá licença que eu estou atrasado...

_Mas eu preciso muito encontrá-la. Cheguei dos Estados Unidos essa semana._ aquela identificação me fez cair à ficha. Então, era dele de que me falou certa vez? _Não é possível que tenha nada? _insistiu_ Telefone, alguém que possa saber...

_Não, ninguém sabe!_ alterei minha voz, de fato irritado com a insistência em me fazer parecer uma pessoa egoísta e mal educada por não ajudá-lo.

_Desculpem por ter ouvido a conversa, mas eu sei onde ela está._ ouvi Fátima atrás de mim.

_Jura?_ os olhos dele se iluminaram como alguém que vê uma luz finalmente no túnel._ Por favor, me dê, eu quero encontrá-la de qualquer jeito..._ riu alto._ Eu sabia que ia conseguir! Diz para ela que é o Marcos, ela vai lembrar na hora._ comemorou como se ganhasse o bilhete da sorte, quando Fátima lhe passou um papel para que anotasse seu telefone e assim Daniela pudesse marcar para vê-lo.

Quando se foi, dado por satisfeito com o sucesso da busca, eu repreendi Fátima por ter fornecido informação a um suspeito, afinal, nada garantia que era uma pessoa confiável.

_Ricardo, você não se preocupou nem um pouco em impedir que a Daniela fosse embora, por que agora está interessado no que esse homem pode fazer com ela?_ respondeu com uma pergunta, que preferi deixar em aberto e fui trabalhar.

Agora o rosto daquele homem me vinha à cabeça como um fantasma. Eu podia esticar o braço e ligar para Daniela, só para ouvir sua voz e me sentir bem, para eu ver que a vida tem algum sentindo. Era uma idéia apenas, vontade sem força. Eu não tinha o papel, estava com ele, com esse intruso que reapareceu. Só Fátima sabia onde Daniela se encontrava, ela e o outro.


Ah! Esse outro.

14.11.06

Capítulo 39: (Daniela)

Eu preferi no final não aceitar a idéia de Guimarães de dividir o apartamento com uma amiga nossa do escritório, porque ela iria acabar sabendo do que aconteceu entre Ricardo e eu e isso não seria bom para nossa imagem. Aliás, eu não devia estar nem aí para a reputação dele, só o que eu conseguia lembrar era da violência e estupidez com que recebeu a confissão de que o amigo e a mulher tinham um caso debaixo das suas vistas. Não podia ter me atirado na cama como se eu fosse uma qualquer.

Por fim, resolvi ficar morando por uns tempos na casa da Fátima. Quem me recebeu foi seu neto, que me explicou que ela só chegaria mais tarde:

_Eu sei, falei com ela antes de vir para cá._ disse-lhe e coloquei minhas malas em um pequeno quarto, onde havia uma cama.
_Pode ficar aqui, porque eu vou dormir na sala._ avisou-me.
_Eu não queria incomodar._ constrangi-me.
_Que nada. Relaxa._fez pouco caso e avisou que precisava sair.

Sentei na cama, olhei ao redor e suspirei. A casa era muito simples, de telhas e janelas de madeira. O chão não tinha piso, era apenas cimentado.

Quando Fátima chegou, eu estava sonolenta, deitada encolhida. Chovia muito lá fora.

_Eu não agüento ver seu Ricardo bebendo daquele jeito._ comentou e sentou-se, fazendo uma careta de cansaço. Apoiou as mãos nas costas._ Ele está numa amargura só.
_Eu não quero ouvir falar dele..._ falei em um tom delicado, para não parecer ríspida com ela, mas não queria lembrar de Ricardo, eu estava muito magoada.
_Bom, se não quer saber dele, que tal saber desse aqui._ ela sorriu cheia de mistério e tirou um papel da bolsa.
_De quem?_ sentei muito curiosa, num pulo.
_Ele apareceu lá em casa, hoje. Foi o Ricardo quem atendeu. Quase expulsou ele de lá... Mas eu consegui pegar o telefone...
_Ai! Fala quem é?! Assim me deixa muito curiosa!_reclamei.
Fátima riu alto e me passou o pequeno papel branco, que tomei para mim e li.
_Ai, meu deus!_ não acreditei. Essa era a pessoa mais inesperada para aparecer agora!


Sorri e senti um leve friozinho na barriga.

11.11.06

Capítulo 38: (Ricardo)

Quando cheguei ao escritório, nessa sexta-feira, todos estavam reunidos diante da televisão. Essa cena eu só vira antes, no 11 de setembro. Geralmente, a tela fica ligada, com um som quase inaudível, fazendo parte da mobília do ambiente. Mas dessa vez parece que algo muito importante ocorria.
-Um homem seqüestrou o ônibus 499, em Nova Iguaçu._ Valter, o officeboy contou-me, apontando para a imagem._Ele tá com um 38 na cabeça da ex-mulher e tá ameaçando que vai matar. O cara descobriu que foi traído. Sabe como é, né? Homem chifrado..._riu.
Aquela frase só poderia ser uma ironia com minha atual situação de vida. As pessoas estavam horrorizadas, mas eu sabia exatamente o desespero que aquele homem sentia. Alice tirou de mim todo e qualquer sentimento bom que havia por ela, só restou um nojo muito grande e uma raiva incalculável.
_Voltem todos ao trabalho._ordenei e ao som da minha voz grave e alta, eles se assustaram e se viraram.Uns me olharam de cima abaixo e se surpreenderam com meu novo visual. Eu decidira aquela manhã colocar um terno preto e óculos escuros. Meu cabelo raspado de máquina e o topete na frente era a mudança final. Queria que as pessoas percebessem que agora eu era outro.
Sentei à minha mesa e peguei o jornal para ler. Eu tinha que voltar à realidade de trabalho, senão enlouqueceria. Uma matéria me ateve a atenção. Agora era permitida, no Brasil, a ortotanásia, que dá o direito aos médicos de desligar os aparelhos daqueles que estão em estado vegetativo. Pensei em Alice, apesar da grande mágoa, eu não seria capaz de permitir que lhe tirassem os aparelhos que a mantinham viva, mas também não tinha mais a mesma motivação de esperar que acordasse.
Minha secretária entrou, com minha agenda diária. Antes, pediu licença para dizer que lamentava muito que Guimarães tivesse saído do escritório e esperou de mim qualquer explicação para aquilo, que não dei. Não queria mais que ninguém soubesse da minha vida, ou da minha intimidade. Eu seria apenas trabalho.
Chegando em casa, só quem me recebeu foi meu cachorro. Fiz-lhe um carinho na cabeça e larguei a pasta em cima da mesa, já posta para o jantar. Só havia um único prato.
_Você não vai fazer nada para impedir?_ Fátima apareceu na sala com o semblante de tristeza._ Daniela já fez as malas.
Meu coração descompassou.
_É?
_Não vai falar com ela?
_Estou cansado, vou tomar banho. _ caminhei para o meu quarto.
Ao retornar à sala, ouvi um barulho de carro, pensei que ela já estivesse indo embora, caminhei até a janela e afastei a cortina. Era apenas um táxi que chegara.
Daniela atravessou a sala com as malas. Olhou-me nos olhos por uns segundos, depois abaixou a cabeça e saiu. Eu fiquei ali parado, fixo, sentindo aquele processo cirúrgico sendo feito no meu coração. Quando Daniela entrou no carro, um nó se fez na minha garganta. Engoli em seco. Tirei uma das mãos do bolso e limpei a lágrima que desceu pela face direita. Uma parte de mim acabava de ter sido arrancada e meu corpo reagia sozinho a isso. Não senti a menor fome para jantar.
Sentei no sofá com uma garrafa apoiada no joelho. Bebi no gargalo e senti minha garganta quente com o álcool. Olhei para o lugar onde fizemos amor à primeira vez, entre as almofadas. Ela estava em todos os cantos que eu olhava. Tomei a decisão de que também sairia urgentemente dali, precisava me livrar daquelas recordações. Queria ficar livre da memória de todos que me traíram.

10.11.06

Capítulo 37: (Daniela)

_O que você está fazendo aqui?_ ouvi Fátima falando alto na cozinha. Sai do quarto para verificar e me surpreendi quando dei de cara com Guimarães, em pé, na soleira da porta.
Ele estava tentando explicar que só queria falar comigo.
_Tudo bem, pode deixar..._ pedi para ela não se indispor, que eu falaria rapidamente com ele e este iria embora antes que Ricardo pudesse chegar.
Caminhamos em direção ao jardim e lá sentamos. Os dois com o mesmo sentimento de derrota.
_Esse rosto inchado e roxo é o que estou pensando?_ perguntei, já imaginando que Ricardo devia ter ido à casa de Guimarães ontem tirar satisfação.
_Sim, é. Ele foi tentar me matar. _ ironizou._ mas isso não mudou o que vivemos, não apagou o que aconteceu entre eu e a mulher dele.
_O que você queria comigo?_ perguntei, curiosa.
_Eu queria pedir desculpa..._ falou aquilo com pouca convicção, acho que na realidade ele estava meio cansado, sozinho, perdido e só eu poderia entendê-lo.
_Pagamos um preço, quando amamos a pessoa errada._ comentei, olhando para as árvores, minha voz não tinha força.
_Eu perdi meu melhor amigo. O cara que sempre foi meu irmão entrou na minha casa e me socou com toda força. Eu deixei, porque eu sabia que merecia...
_Ele foi violento comigo também._ confessei. _ Eu vou embora daqui, não tem mais espaço para mim... Eu preciso te pedir uma coisa.
_Claro, o que quiser._ ele olhou-me ansioso por poder me retribuir todos os favores que lhe fiz.
_Eu quero arrumar um emprego. Aí, poderei pagar um aluguel.
_Pode deixar, isso é fácil. Sabe aquela menina do escritório, a Roberta, Betinha? Ela quer alguém para dividir o apartamento com ela. A menina que dividia saiu. E o emprego... Hum, tem um empresário que está precisando de uma secretária bilíngüe, vou te indicar.
_É incrível como vocês dois se parecem... Conseguem resolver tudo num passo de mágica.
_Nem tudo..._ consertou.
Guimarães foi embora, meu problema estava resolvido, mas meu coração continuava esmagado, destruído. Deitei no sofá e fiquei abraçada à almofada calculando que rumo eu iria tomar da minha vida.
Ricardo chegou de noite e foi direto para o quarto, nem dirigiu seu olhar para mim.
Lembrei das cartas de tarot. De fato cá estava eu diante do grande rompimento.

8.11.06

Capítulo 36: (Ricardo)

_Seu Guimarães tinha um caso com dona Alice._ o que Fátima acabara de dizer ficava ressoando na minha cabeça. Eu não conseguia falar nada, perdi a minha voz.
_Ricardo, fala alguma coisa..._ a voz de Daniela me trouxe de volta aos poucos a realidade.
Então o meu amigo tinha um caso com a minha mulher nas minhas costas? Eu fiz todo esse tempo o papel de bobo, enquanto eles iam para cama? Um vulcão começava a entrar em erupção dentro de mim.
_Sua vagabunda!_ atirei todos os porta retratos no chão. Um ainda sobrou inteiro. Arremecei-o contra a parede e os vidros se espalharam por toda parte._ Sua vadia!
_Ricardo, calma!_ Daniela se afastou com medo de mim.
Caminhei até meu quarto e procurei no bolso da minha calça a chave do meu carro.
_Ricardo, nós precisamos conversar!_ Daniela entrou e eu a olhei e senti tanta raiva._ E você?_peguei-a pelos braços e a joguei em cima da cama.
_Calma, não me machuque, por favor.
_O que você pensa que são meus sentimentos?_Segurei seus pulsos contra o colchão e seu rosto estava à dez centímetros de distância do meu._ Então, tudo o que vivemos foi uma das mentiras que vocês combinaram?
_Não, Ricardo. Eu me apaixonei por você, eu juro...
_Enquanto isso, você fazia um teatrinho com seu comparsa?
_Ricardo, não fala assim comigo!_ ela começou a chorar.
_Garota, eu quero te matar!_ segurei seu pescoço._ Como é que me escondeu uma coisa dessas?
_Fátimaaa! Socorro!_ ela gritou._Ricardo, ela me fez jurar, ela não queria que você soubesse para não sofrer...
_Não sofrer com os chifres que ela colava? Quem mais sabia?
_Eu não sei...
_Desde quando você ficou sabendo?
_Desde o dia em que eu peguei os dois discutindo na casa do Guimarães...
_Dani, eu não esperava isso de você..._soltei-a e fiquei de pé.
_Me perdoa..._ ela pediu.
_..._ dei um riso sarcástico e voltei para sala, mas ela continuou me seguindo.
_Você tem que entender que era um juramento._ argumentou.
Parei antes de abrir a porta de saída e virei-me:
_Nenhum juramento vale mais que a verdade...
_Eu não queria te fazer mal.
_Daniela, você é igual a sua irmã, aliás, eu não sei qual das duas é pior!_ bati a porta.
Meu destino agora era a casa de Guimarães. Não demorei muito para chegar, visto a velocidade que usei para alcançar sua casa no menor espaço de tempo possível. Antes mesmo de sua empregada me anunciar, eu já atravessava a sala à passos largos. Ele se levantou do sofá, onde estava vendo televisão, assombrado com minha presença.
_Seu canalha!_ enfiei-lhe um soco bem no meio da cara que o fez cair no chão._ Seu traidor!_ Enfiei repetidos socos nele, sem que tivesse tempo para reagir._ Você foi para cama com a minha mulher!
_Ricardo, eu posso explicar..._ ele se contorceu cuspindo sangue.
_Explicar? Que detalhes sórdidos ainda falta eu saber?_ fui empurrado por ele para longe.
_Você também me traiu! Não esqueça que você foi para cama com a minha namorada!_ ele argumentou.
_Era tudo uma mentira!
_Mas você não sabia disso quando a seduziu!
_Sem essa! _ ri sarcástico.
_Você não pensou nem um pouco em como eu ficaria, se soubesse? Não sentiu vergonha dos próprios sentimentos por ela?_ ele sentou-se tossindo._ Porque foi isso que eu também senti! O seu casamento era uma droga. Você nem procurava mais ela como mulher, é mentira?
_Isso não te dá o direito...
_De me apaixonar por ela? Você se apaixonou pela irmã dela! Ou vai negar?! Você dormiu na cama da sua mulher com a sua cunhada! Isso não é menos repugnante!
_Não pense que vai sair como vítima dessa história!_falei.
_Cara, eu amo a sua mulher!_ ele começou a chorar, eu nunca vira ele chorar._ Eu vou todos os dias ao hospital vê-la. Nem você faz isso!_ Seu nariz escorria sangue._ Eu pago a enfermeira para que não lhe conte que eu a vejo fora da hora de visita. Você sabe o que é carregar esse peso e nem ter certeza de que ela vai acordar um dia? Você provavelmente iria pedir separação quando ela ficasse consciente. As mulheres quando entram no nosso coração fazem isso cara, elas tiram a nossa razão. Prova disso é o que você fez pela Daniela! Você traiu a sua mulher!
_Eu não quero ouvir mais nada._ levantei-me e sai arruinado.

7.11.06

Capítulo 35: (Daniela)

Fátima olhou-me entrar na cozinha, mas continuou a catar seu feijão, sem perguntas. Sentei-me à sua frente e fiquei olhando para o lado. Minha perna batendo de baixo da mesa andava milhas.
_Você já devia ter dito para ele..._referiu-se ao fato de eu não ter contado a Guimarães sobre meu caso com Ricardo.
_Eu sei! Ele saiu daqui soltando fumaça pelas ventas!
_Ele se sentiu enganado...
_Faça-me o favor, né? Ele me enganou primeiro! Ele enganou o próprio amigo...
_Você não contou por orgulho..._ Fátima comentou com uma voz pausada, arrastou os grãos de feijão da mesa até caírem na bacia de plástico no seu colo._ Na verdade a menina não queria era que ele dissesse que vocês cometeram o mesmo erro e são iguais...
_Que seja! Ele ficou chateado por ter que ficar fingindo ser meu namorado, quando eu podia dizer para o Ricardo que nós terminamos.
_Quem tá sendo feito de idiota aqui é o seu Ricardo...
_Eu não consigo nem dormir pensando nisso. Eu olho para ele e tenho vontade de falar tudo, me ajoelhar e pedir perdão...
_Se a patroa não acordar, você vai guardar esse segredo para sempre?
_Não sei... não sei..._ afoguei minhas mãos no rosto._ Eu não estou conseguindo segurar o peso desse juramento.
Ouvimos um carro sendo ligado. Vi da janela da cozinha que o carro de Ricardo acabava de atravessar o portão de saída.
_Será que ele foi atrás do Guimarães?_perguntei._Ai, Fátima, me ajuda, eu estou enlouquecendo!
_Menina, venha cá._ Fátima me puxou pela mão e me fez sentar à mesa outra vez._ Fique aqui e me espere. Ela foi até o armário e buscou uma caixa de velas, depois saiu para o jardim e voltou com algumas rosas. _ me acompanha..._ ela pediu. Eu a segui movida pela curiosidade. Quê? Ela me ensinaria a fazer um despacho?!
Entramos no quarto de Ricardo, depois no banheiro. Fiquei parada em pé, totalmente em silêncio, não queria quebrar a magia do momento. Ela colocou a banheira para encher e acendou três velas de um lado da banheira e três velas do outro lado, depois colocou a última na cabeceira. Desligou a banheira, tocou a água para sentir a temperatura. Abriu o armário, achou um vidrinho de sais e jogou na água uma porção. Por fim, atirou as pétalas de rosas por cima.
_Você vai entrar e descansar um pouco.
_Fátima, eu não estou precisando de banho! Eu sei que ficou um banho glamuroso, mas eu preciso tomar uma decisão..._ comecei a falar atropeladamente e ela não me deu ouvidos, me pegou pelo ombro e foi guiando até a banheira.
_Eu vou ao quarto pegar uma coisa e você entra na água.
Revirei os olhos, retirei a roupa e fiz o que ela me pediu.
Ela voltou com um incenso, que acendeu em cima do armário. Caminhou até mim e eu ia seguindo-a com os olhos. Pegou meu cabelo e o colocou para fora da banheira.
_Fecha os olhos, menina._ pediu e fez movimentos circulares com os dedos na minha testa. _Respira profundamente... muito profundamente... _ sua voz baixinho começou a me relaxar._... Agora você vai se lembrar de várias cenas do seu passado distante, depois das últimas semanas e vai mergulhar nos seus pensamentos...
Ela saiu e fechou a porta. Eu fiz uma revisão de vida durante as horas que fiquei ali sozinha. E quando Ricardo chegou eu já estava decidida ao que fazer.
Encontrei-o na sala, sentei-me ao seu lado e olhei nos seus olhos:
_Eu preciso te dizer uma coisa..._ a minha voz quase não saia.
_O quê?_ ele ficou esperando que eu continuasse, mas simplesmente eu não conseguia. Olhando-o tão lindo, de blusa azul clara, jeans e descalço, eu tinha vontade de beijá-lo e pedir que esquecesse tudo.
_Eu não sei como começar...
_Fala, o que quer que queira dizer, fala...
_Desculpe..._ me deu vontade de chorar.
_Dani? O que está acontecendo?_ ele segurou meus pulsos e tentou olhar nos meus olhos._Você não gosta de mim, é isso?
_...
_Você decidiu ficar com o Guimarães?
_...
_Dani, fala qualquer coisa, por favor! Eu já estou ficando aflito.
_...Ricardo eu não aguento mais guardar isso dentro de mim.
_Isso o quê? Diz para mim!
_Eu não posso dizer!_ levantei-me, precisava sair de perto daquela pressão psicológica, mas quando virei-me, dei de cara com Fátima.
_Você não vai fugir!_ Ricardo segurou meu braço com força.
_Ricardo, por favor me solta._pedi.
_Não!_ ele agora me segurava com força, queria arrancar de mim a verdade.
Lembrei do rosto de Alice me fazendo jurar que nunca contaria o caso dela com Guimarães.
_Então, eu conto._ Alice decidiu.
_Não!_ implorei.
_Será que você duas podem parar de me enlouquecer?!_ Ricardo gritou no auge da sua fúria._ Eu odeio ser feito de...
_Seu Guimarães tinha um caso com dona Alice._ Fátima cortou-o com a sentença que resumia tudo.
Ele ficou com a boca entreaberta, os movimentos paralisados. Seus olhos me procuraram e se fixaram em mim.
_Me perdoa por não ter dito..._ afastei-me com medo do que ele fosse capaz._ Alice me fez jurar, enquanto estava prestes a entrar em coma, que eu não podia contar nunca...
Ricardo andou até a lareira e ficou de costas para nós. Ali havia vários porta-retratos dele com a esposa.
_Ricardo, fala alguma coisa..._ pedi.

5.11.06

Capítulo 34: (Ricardo)

Dani e eu estávamos deitados no tapete da sala vendo tv, depois do almoço. Não que esse fosse um costume para mim, aliás, a minha vida estava fugindo completamente aos padrões. Mas o que importava era que eu estava feliz como nunca. Daniela era um sonho e eu me sentia completo ao seu lado. Poderia passar o dia inteiro ali, com minha cabeça deitada em seu peito, enquanto brincava com meus cabelos em um carinho interminável.
_Eu estava pensando, linda... A gente podia se mudar... Essa casa me traz muitas lembranças. Você estava certa.
_Eu queria muito isso. _ ela completou.
_E se a gente saísse amanhã para procurá-la?_ perguntei.
_Eu acho ótimo!_ ela riu e me beijou um beijo invertido, gostoso, brincando com meus lábios.
_Beijo do homem aranha..._ ri baixinho e me ergui um pouco mais para beijá-la de frente. Acariciei seu cabelo sedoso, me aconcheguei nos seus braços.
_Você é muito gulosinho, a gente já...
_É a sobremesa._ brinquei e rimos juntos.
Ouvimos uma tossidinha e olhamos para frente, era Fátima em pé na sala. Ela olhava para o lado e nós acompanhamos seu foco de atenção. O que vi fez gelar todo meu corpo. Guimarães estava em pé, na porta de entrada. Seu rosto petrificado me fez sentir o pior dos mortais. Daniela e eu nos afastamos.
_Calma, eu..._ tentei começar qualquer argumentação...
_Eu vim aqui dizer que acabamos de perder a conta com os japoneses, afinal, seu celular não atende._ ele falou friamente._ Mas entendi agora, vocês estão bem ocupados. _ Meu amigo nos olhou por uns segundos e depois virou-se para sair.
_Guimarães, espera?!_ Daniela correu atrás dele, precipitei-me para seguí-la, mas Fátima me segurou pelo braço.
_Deixa eles sozinhos..._ aconselhou.
_Eu temia a hora que isso ia acontecer..._ passei a mão pelo cabelo._
_Eu ia ver a menina Angélica no quarto e quando passei pela sala vi ele parado ali na porta, que devia estar aberta..._ Fátima explicou.
Pelo vidro da sala vi Daniela discutindo com Guimarães que tentava entrar no carro, contra as tentativas dela de contê-lo. Eles conversaram um pouco e por fim se foi. Dani ficou sentada em um banco do jardim sozinha.
_Ela deve ter se arrependido de tudo e vai querer voltar com ele. _ pensei alto.
_Deixe ela sozinha um pouco._ Fátima ainda do meu lado, me deu uns tapinhas no ombro.
Fui para meu quarto e lá liguei o som, deitei na cama. Não queria ir para a empresa e enfrentar o meu amigo na frente de todos. Agora aquilo me preocupava mais que a perda da conta para os japoneses. Aliás, isso era realmente a maior das derrotas. Como eu pude ter traído meu amigo?
Logo me veio à mente nossas partidas de futebol na faculdade, nossas farras juntos, nossa empresa. Ele fora o amigo mais leal que alguém poderia ter e eu tinha sido fraco o suficiente para me apaixonar justo pela garota dele? Que ódio de mim mesmo! Mas eu não podia mandar no meu coração.
Que explicação eu daria? Que enquanto ele viajava e minha mulher dormia em coma, eu me encantei por sua namorada? Não havia nenhuma justificativa que merecesse o perdão que eu queria. Agora ele iria querer acabar com nossa sociedade? Aquilo caiu de vez como um golpe sobre mim.

1.11.06

Capítulo 33: (Daniela)

Fátima me viu na cozinha enterrada em um pote de sorvete e me olhou cheia de perguntas, mas não fez nenhuma.
_Tá, ok, pára de me olhar! Eu sei que estou fazendo uma grande merda!_ explodi.
_Eu não estou te condenando, é você que está assim._ ela limpou a mesa com um pano.
_Ele começou a me seduzir, aí eu fui fraca e...
_Daniela?_ interrompeu-me._Ninguém faz nada sozinho, você não foi parar na cama dele como um passe de mágica!
_Eu tenho que sair dessa, eu preciso ir para um lugar bem longe...
_Fugir não resolve nada._ sentou-se ao meu lado.
_Fátima, eu..._ senti um nó na garganta, larguei o pote de sorvete._... eu to gostando do meu cunhado! Eu amei dormir com ele e isso é horrível!
_Por quê?_ ela achou normal.
_Simples, porque quando a minha irmã acordar eu falo o que para ela? Vai pensar que estou me vingando... _comecei a balançar o pé, estava em um nervosismo absoluto.
_Daniela, presta atenção..._ Fátima segurou a minha mão com muito carinho e sua voz pausada trouxe paz para o meu ser._... Vocês duas já cruzaram suas linhas do amor duas vezes. Nada disso é à toa, não é por acaso que você veio parar aqui. O Ricardo já estava esperando por você. Ele precisou passar pela sua irmã para te encontrar...
_Do que está falando?_ franzi a testa.
_Eu conheço o Ricardo desde moleque. E vi os olhos dele sempre te admirando, dá para perceber como ele ficou hoje, quando viu o Guimarães com você. Ficou doido de ciúme!
_Jura?_ senti uma emoção por ouvir aquilo. Um friozinho delicioso na barriga.
_Talvez seja melhor contar para Guimarães o que está acontecendo... Depois terá que ver como resolve isso com Ricardo...
_Nem quero pensar nisso..._ respirei fundo e fechei os olhos.
_Não pense muito, viva. Porque a vida pode acabar tão rápido...
_Eu sei disso..._ lembrei-me do acidente._ Por que eu fiquei viva e não minha irmã?
_Porque vocês precisavam consertar os caminhos e essa foi a maneira...
_Esse barulho é do carro do Guimarães?_ perguntei e Fátima levantou-se para olhar através da janela da cozinha.
_Sim, é. Ele tá indo embora. Estranho não ter falado com você._ comentou.
_Ai, meu deus! Será que Ricardo falou com ele...?
_Estou com fome, gente!_ Ricardo apareceu na cozinha sorrindo e isso respondeu a minha pergunta, ele, pelo visto, não tocara no assunto com Guimarães.
_Por que vocês não saem para comer fora?_ Fátima propôs e Ricardo e eu nos olhamos. Sabíamos que aquela proposta significava seu apoio àquele romance.
_Vamos?_Ricardo perguntou meio tímido.
_Eu aceito._ sorri e pedi para me esperar tomar um banho.
Foi a primeira vez que me arrumei para sair, desde o acidente de Alice há 3 meses. Ela nunca mais acordara e Ricardo e eu ficávamos cada vez mais apaixonados. O jantar, nem preciso dizer que foi delicioso. Comemos um rodízio de massas em um restaurante italiano divino. Ricardo e eu não paramos de conversar um só minuto. Ao entrarmos no carro, ele não ligou imediatamente o automóvel:
_Você quer ir para casa agora?_ perguntou.
_O que você sugere?_ olhei-o.
_..._ ele deu um sorrisinho e virou a chave. Rapidamente estávamos entrando em uma avenida cheia de motéis na beira da estrada._... Você quer?
Pensei em Alice apaixonada por Guimarães, nas palavras de Fátima, ouvi as batidas do meu coração:
_Só se tiver um espelho bem grande._ pisquei o olho.
_Você é pior do que eu esperava..._ zombou e me deu um beliscão na perna de leve.
_Eu? Você me faz essas propostas indecentes..._ ri maquiavélica e o portão da garagem se abriu.
Quando a porta da suíte se fechou atrás de nós, eu me senti uma mulher pouco experiente, sem saber como agir, com medo, um pouco de vergonha... Mas antes que eu concluísse o melhor lugar para colocar as mãos, Ricardo aproximou-se e me beijou. Aquele beijou que começa com uma leve puxada na nuca. Puxou a barra do meu vestido para cima e acariciou minha bunda. Abri-lhe os botões da camisa e aspirei seu perfume. Caímos na cama e o espelho do teto foi testemunha da nossa heresia.
_Você não tem medo de se arrepender?_ perguntei sem fôlego.
_Eu só me arrependo do que não fiz._ levantou todo meu vestido e me amou inteira.
Abraçados, sonolentos e realizados, ficamos curtindo os nossos corpos grudados.
_Você é tudo que eu sempre esperei._ falou-me e isso me remeteu a previsão de Fátima de que ele me esperava._ Eu amo você...
_O que está dizendo?_ levantei a cabeça do seu peito.
_Eu não preciso de permissão, nem de assinar nenhum papel para dizer o que eu estou sentindo: eu amo estar com você, viver com você...
_Eu também estou gostando muito de você e isso me dá medo..._ me aconcheguei em seus braços e adormeci.