29.10.06

Capítulo 32: (Ricardo)

Abri os olhos e me reconheci na cama, às nove da manhã. Ai, meu Deus, perdi a reunião!
_Droga!_ levantei em um pulo, peguei o telefone e disquei rapidamente para o escritório. Enquanto chamava, observei Daniela esparramada entre os lençóis. A minha secretária entrou na linha e eu perguntei como estava tudo por lá. O caos, claro!

_O que eu faço com os dois japoneses que estão aqui impacientes?
_Olha, fala para eles que eu estava voltando de viagem e..._Coloquei meu cérebro para funcionar, tinha que entretê-los._... e que só posso chegar depois do almoço! Paga para eles comerem feijoada, em algum restaurante na beira da praia, enfim, banca um dia de turista para eles, porque não vou poder chegar aí agora. Estou com um problemão!

_Claro, senhor._ ela desligou.
_Então, eu sou um problemão?_ ouvi uma voz rouca atrás de mim.
Virei-me e vi Daniela se levantando da cama.
_Não!_ puxei-a._Meu único problema é não querer sair daqui._ beijei seus lábios.
_Ricardo, preciso escovar os dentes..._ ela ficou envergonhada._ Eu estou horrível!
_Que bom, só assim eu tenho certeza que aquela loucura toda foi com uma mulher de verdade e não com uma boneca inflável._ brinquei.
_Loucura toda? Do que você está falando?_ franziu a testa com ar de desentendida.
_Como assim...? Ontem...? Nós...?_ eu senti um frio na barriga, um medo do que eu temia, que ela despertasse daquilo tudo e achasse que o somatório da noite foi igual a zero.

_ Estou brincando, bobo!Não precisa fazer essa cara!_ ela riu e me puxou pela calça do pijama._ Eu não vou escapar, ao menos que você queira.
_Então, a gente fica aqui para sempre e vive de luz._ Abracei-a.
_Ricardo? Seu amigo Guimarães está aí!_ Fátima bateu na porta.
Daniele olhou-me séria.
_Diz que eu já vou._ pedi._ Você vai vê-lo? Claro, que pergunta besta a minha._ eu soltei-a.
_Ricardo, calma, as coisas vão se resolver..._ Daniela ficou constrangida.
Eu fiz sinal para ela não tentar se explicar. Pediu-me licença e lavou o rosto no banheiro. Eu entrei no chuveiro e deixei a água cair sobre mim. Pensei no meu amigo, eu não teria cara de olhar para ele, depois de ter passado a noite com a sua namorada. Mas eu precisava ser frio. Quando o encontrei na sala, estava conversando com Daniela, que tomava café da manhã.
_Eu já sei que estou atrasado._ desculpei-me, antes de qualquer coisa.

_Você quer perder os nossos dois clientes mais importantes? Eu não sei até quando aquele monte de bunda desfilando na frente deles vai segurá-los!_ Guimarães estava irado comigo, usando aquele tom de pai que repreende o filho depois de uma grande imbecilidade feita._ Acabei de saber que mandou eles almoçarem à beira mar, que lindo não?_ Ele falou com irônia e deu um risinho, no final, arrematou com o dedo apontado para mim._ Assim a gente não chega a lugar nenhum!
_Ok, ok, eu já vou buscar minhas coisas!_ levantei os braços para o alto em sinal de rendição. Não era muito confortável para mim estar levando um sabão daqueles, mas eu precisava daquilo e de muito mais, eu estava sendo um crápula! O que eu podia fazer para dar um rumo aquela história? Levantar o dedo e acrecentar: "Ah! Eu perdi a reunião, porque eu dormi com sua namorada."

_Vamos! O que está esperando, cara?!_ ele bateu palmas e o seu celular começou a tocar. Atendeu, passou a mão no rosto e virou-se para o lado.
Procurei os olhos de Daniela, que se mantinha concentrada abrindo crateras no mamão com a colher.
_Podemos ir._ voltei para sala e Guimarães e Daniela estavam abraçados. Aquilo me deu um mal estar. Uma sensação de traição, ao mesmo tempo de culpa também, porque eu estava destruindo a relação deles.
_Vai ficar tudo bem, amor! Sua irmã irá acordar._ Guimarães beijou-a na boca e eu não quis ver, era demais para mim. Passei pelos dois e me dirigi à garagem.

No fim da tarde, depois de resolver todos os problemas do escritório, fui visitar Alice. Hoje, com um sentimento de vergonha. Ela parecia dormir um sono profundo e eterno. Sentei ao seu lado, como sempre fazia em minhas visitas e lhe falei de nossa filha, da empresa, da loja dela que estava muito bem nas mãos de sua gerente... Contei-lhe tanto, como se ela pudesse me ouvir. Aliás, foi a vez que mais tive abertura. Na nossa relação nunca houve momentos de desabafo e intimidade de pensamento... Agora quase morta em minha frente, eu parecia tão mais perto dela.

Fiquei quieto, pensando no que fiz ontem. Não era justo ter feito isso com ela, que mal ou bem, com todos os defeitos, me respeitava e não faria o mesmo comigo. Sua irmã, que tanto lhe trazia indisposições dormira em meus braços, na sua cama. Senti raiva de mim, raiva desses desejos carnais mais fortes que minha resistência. Teria sido tudo carência? Não, não era, e essa sim foi a pior parte de encarar: eu estava deixando desaguar um sentimento, que se aflorou na ausência dos olhos questionadores de Alice. Sem ela, eu pude dar vasão a tudo que eu quis fazer desde que Daniela chegou iluminando minha casa, minha vida.

Lembrei do beijo dela em Guimarães. Como é que vou fazer com meu amigo? Mesmo que ele não viesse saber o motivo pelo qual ela vai terminar com ele, eu não posso simplesmente aparecer no dia seguinte de mãos dadas com ela! E isso não era apenas por causa dele, mas porque eu estava casado com uma pessoa em coma.

_Alice? Quando você vai acordar?_ levei as mãos ao rosto e me senti tão frágil, tão impotente e perdido.

25.10.06

Capítulo 31: (Daniela)

Eu temia a hora em que o encontro com Ricardo fosse inevitável. Ele sentou-se ao meu lado no sofá e repassou os canais, sem me perguntar se podia. Será que queria me provocar? Por fim, desligou a televisão e ficou calado.
_Eu já sei o que deve estar pensando..._ quebrei o regime do silêncio.
_E o que é?_ ele virou o rosto para mim. Sua boca que eu havia beijado à tarde, e que agora eu sabia o gosto, estava úmida. Cabelo lavado e cheiroso.
_Está se sentindo culpado e vai me dizer que tudo não passou de um impulso, carência e...
_Então, para você tudo não passou disso?_ ele franziu a testa e balançou a cabeça para os lados.
_E o que foi para você?_ ao fazer aquela pergunta, senti um frio na barriga, uma sensação boa de querer muito ouvir aquela resposta.
_Eu não custumo falar o que sinto com palavras._ ele novamente me encarou e eu sorri tímida. Pegou meu cabelo e afastou para o lado, acariciou minha bochecha com o polegar direito e ficou estudando meu rosto, ou minha resistência._ Eu não sei o que é isso. Só sei que não consigo mais controlar... Eu só sei que quero e... Viu? Não sou bom c...
Beijei-o, sem pensar, sem medir nada. Nossas bocas se chocaram, mas ele recebeu a minha com paixão. Puxou-me com suas mãos pela minha blusa e eu sentei-me em seu colo, de frente. Não havia mais domínio de nada. Eu não queria pensar em ninguém, só na explosão que começava.
Arranquei minha blusa e a deixei cair no chão. Ricardo beijou-me os lábios com vontade, quente, sensual. Puxei-lhe a camiseta e senti seu cheiro, a pele, o gosto. Ele beijou-me o pescoço e fez cair as alças do sutiã.

Estávamos ofegantes:
_Vamos para..._ ele quis propôr mas eu balancei a cabeça para os lados e tampei sua boca com a minha, não queria ir para a cama dele e de Alice e não me importava que ninguém chegasse, para mim só era Ricardo e eu.
_Eu quero você..._ confessei, quando ele me deitou no sofá e escorregou a boca pelos meus seios e os sugou.
_Eu também te quero._ começou a se desfazer do restante que faltava para nos unir em carne e volúpia.
_Isso é uma loucura..._ olhei-o nos olhos, segurei seu rosto com as mãos.
_Se é loucura, então, tem perdão..._ beijou-me e o envolvi completamente.
Foi tudo tão intenso, que quando nos demos conta, estávamos suados e mortos, porém ainda mais vivos. Nos abraçamos e procuramos não dizer nada que nos lembrasse que aquilo era proibido.
_Você é maravilhosa._ ele sorriu e me beijou de leve a boca.
_Você também é lindo._ tirei o cabelo da sua testa._ eu queria que essa noite não acabasse._ comentei.
_Psiu... Não fala..._ tocou meus lábios com os dedos._ Ai, garota, como você me tira de mim, hen?_ riu.
_Ricardo, eu queria uma coisa..._ confessei.
_O que quiser. Peça o mundo inteiro, que eu trago ele para você._ sorriu e aquela frase apaixonada me deixou sem palavras. _Anda! O que quer? Pede!
_Eu queria sair dessa casa. Ela me traz muitas lembranças...
_Eu sei... Você quer que eu alugue algo para você?_ ele pareceu triste com a idéia.
_Não! Para nós._ consertei._ Você, eu, Angélica e podemos levar a Fatinha..._ propus._ Pode ser provisório.
_Ou para sempre?
_..._ não respondi, eu sabia a condição que era necessário para o "pra sempre".
_Só que esqueceu de uma coisa, uma coisa que não me deixa em paz com a consciência...
_Hum?
_Meu amigo Guimarães... Você ainda está com ele, né?
_E você com a minha irmã...
_Como fazemos?_ perguntei.
_Não sei. Amanhã a gente pensa nisso._ ele afastou a questão._ É que eu não queria que nada estragasse isso. Eu tenho medo que você acorde e me diga que foi só um sonho e que tudo não passou de uma diversão...
_Você fala muito!_ ri e foi minha vez de mandar ele calar, mas o fiz nos melhores métodos, ocupando sua boca com meus beijos.
A noite de sono foi curta...

Capítulo 30: (Ricardo)

O domingo abriu com um sol maravilhoso. Olhei para a piscina de casa e me dei conta de quanto tempo não entrara nela. Eu estava deixando de fazer tudo o que gostava, com medo de aquilo ser um desrespeito à Alice, ao seu sofrimento... Eu não podia continuar vivendo aquele luto, ela estava viva, apesar de ser como se não estivesse.

Pus a roupa de banho e mergulhei com toda vontade naquela água limpa e morna. Quando voltei à superfície, vi Daniela se sentando em um espreguiçadeira:

_A água está maravilhosa. Fará bem pro seu pé. Não tem atrito. Agora que tirou o gesso, precisa movimentá-lo.
_Não quero..._ ela devolveu-me um sorriso pequeno. Temi que novamente estivesse depressiva.

Sai da água e meu corpo molhado respingou em cima dela:

_Aiii, Ricardo! Olha o que fez?!_ levantou-se e mostrou a roupa.
_Você fica linda irritada assim._ escapuliu da minha boca. Ela olhou-me e eu senti que minhas orelhas esquentaram.
_E você devia ser menos desajeitado. Parece um cachorro que balança os pêlos do corpo todo...
_Hei, eu não sou tão peludo assim! _ ri.
_..._ ela riu também e agora seu sorriso era enorme e encantador.
_Tem certeza que não quer uma banhozinho...?_ pisquei o olho.
_Não, Ricardo, nem ouse!_ ela desviou-se das minhas mãos._ Eu não posso correr._ começou a rir._ Nãoooo!_ pediu, tentando se soltar do meu abraço._Não me jogue na água, por favor!_ implorou._ deu uns soquinhos no meu peito.
_Você está muito selvagem, mocinha._ falei com uma voz maquiavélica.
_Ricardo, se você fizer isso eu não vou te perdoar!_ ela falou séria.
_Ah, não?!_ joguei-a contra a água da piscina e cai junto. Ela voltou à tona tossindo por ter engolido água.
_Eu falei para você não ter feito isso!_ ela gritou comigo e nadou para a borda.
_Você está de mal?_ zombei._ e cheguei antes dela na beira da piscina. _Corta aqui?!_ mostrei os dois dedos mindinhos.
_Eu disse para me deixar em paz, não disse?!_ ela berrou comigo e vi que estava de fato irada.
_Hei, você está precisando pegar um solzinho...
_Enfia esse seu sol n...
_Que isso, menina?!_ tampei sua boca e suas narinas ficaram se mexendo ao respirar forte._ Você está tão rebelde._ encostei-a contra a parede da piscina e ela não relutou. Fazia parte do joguinho o contra-ataque,mas simplesmente ela estagnou e não resistiu. Seus olhos azuis brilhantes não sei o que viram em mim, que a fez render-se.
_Onde você quer chegar com isso?_ ela perguntou séria.
_Como assim?_ eu ri, agora sem graça._ Foi só uma brincadeira...
_Tudo, então, está sendo só uma brincadeira?
_Não estou entendendo..._ balancei levemente a cabeça para os lados e senti que ela estava falando nas entrelinhas. Meu coração começou a bater mais rápido.
_Eu não costumo ficar de rodeios, nem é do meu feitio não fazer o que eu quero...
_E o que você quer?_ perguntei mais perto dela, meu corpo fez uma zona de sombra em seu rosto. Eu não podia mais continuar negando a atração forte que eu começara a sentir por ela. Eu dera muita bandeira, ou ela sentia o mesmo?

_Deixa para lá..._ ela virou de costas para sair da água. Virei-a e trouxe seu corpo para junto de mim. Abracei-a e sua boca estava tão próxima da minha que eu sentia o ar quente nos meus lábios. Havia só dez centímetros de distância neste espaço cabia o mundo de proibições, cabia Alice, cabia todos os compromissos sociais, cabia a moral e os bons costumes. Mas era tão pequeno, que uma vez chegado àquele ponto, só meu coração respondia por mim.

Beijei-a e ela envolveu meu pescoço com os braços. Sua mão fez carinho na minha nuca de um jeito amoroso. Minha boca se misturando com a dela, deslizando pelos seus lábios, minha língua experimentando a sua. Eu me sentia totalmente vivo. Levantei levemente sua blusa e acariciei suas costas. Ela desceu suas mãos pelas minhas e aquilo produziu efeitos ainda maiores em mim. Eu estava à tanto tempo querendo aquilo, querendo tê-la em meus braços, possuí-la.


Desde o dia em que Daniela chegou aqui em casa e eu a vi sob a luz da rua, com seus olhos brilhantes, com seu sorriso encantador, eu sonhei que podia voltar a ser um cara livre e desempedido para puxá-la e lhe roubar um beijo. E eu estava ali, justamente sendo correspondido com a mesma intensidade. Havia uma suavidade em nossos carinhos e o que começou como um contato afoito, prolongou-se de maneira delicada e romântica.

Não sei se por eu me sentir mais velho ou mais experiente, eu a tomava com cuidado, com medo de ser bruto, de não saber ter jeito. Quanto tempo eu não sentia medo de decepcionar alguém, de não ser bom o bastante, nem fazer direito. E agora eu estava ali me entregando por inteiro àquele pecado.

_Gente, o almoço está..._ ouvimos a voz de Fátima vinda da varanda. O susto foi tão grande, que nos afastamos abruptamente. Olhamos para o lado e vimos Fátima nos encarar, não tínhamos certeza se ela havia presenciado aquilo. Mas pelo seu longo olhar sobre nós, percebemos que ela havia sido testemunha do que fizemos. _..._ Fátima simplesmente se virou e saiu.

Daniela não me olhou mais. Passou as duas mãos no rosto e parecia se perguntar como é que tinha feito aquilo. Virou-se de costas, apoiou-se na borda da piscina e deu um impulso para sair.

Fiquei ali sozinho. Eu era uma ilha de confusão. E agora, o que vai ser?

Dei um mergulho até o fundo da piscina e quis não sair mais, porque lá em cima havia um mundo que eu não queria enfrentar.

20.10.06

Capítulo 29: (Daniela)

Quando sai da sala da psicóloga, encontrei Ricardo conversando com uma mulher que estava na sala de espera. Ele prontamente adiantou-se a despedir-se dela e me acompanhou até o estacionamento. Parecia ansioso por algum comentário, mas não pediu. Apenas colocou o braço atrás da minha cintura e me guiou para que eu me sentisse segura. Antes de entrar no carro, rompi o silêncio:
_Foi bom..._ comentei e fiquei sem o resto das palavras. Ele sorriu._ Obrigada, você está sendo incrível...
_Eu vou cobrar por isso..._ ele piscou o olho e deu a volta no carro para poder entrar.
Eu ri e balancei a cabeça para os lados, ele me parecia meio bobo. Se Alice estivesse ali, perguntaria o que dera nele.
_Eu já sei no que está pensando._ ele comentou virando o rosto para o lado, enquanto dirigia._ Você fica com o rosto triste... Não gosto de te ver assim.
_Ricardo, presta atenção no trânsito._ pedi.
_Eu estive pensando em almoçarmos, que acha?
_Claro, Fátima deve ter preparado algo...
_Não pensei em comermos fora.
Eu estava começando a sentir aquelas tonturas. Respirei fundo. Pedi para Ricardo não correr tanto.
_Pára, por favor, pára..._ pedi e ele franziu a testa.
_Tudo bem, fica calma._ ele falou e sem prestar atenção no trânsito, fechou um carro. Um motorista começou a xingá-lo de todos os nomes. O solavanco do carro para o lado me tirou de mim.
Abri a porta do carro e senti-me saindo de um afogamento. Estava sem estabilidade nos pés.
_Dani, estou aqui, tá?_Ele correu para dar a volta e me segurar._ Desculpa, desculpa...
_Eu pedi para você dirigir direito..._ minhas mãos estavam tremendo.
_Dani, olha para mim._ ele segurou meu rosto._Não vai acontecer de novo, não vai!_Abraçou-me e fez carinho no cabelo da minha nuca._Eu não ia nunca te deixar em perigo._ falou no meu ouvido baixinho enquanto suas mãos acariciavam minhas costas.
_Desculpe, eu estou fora de mim, não sei o que está acontecendo..._ não conseguia olhá-lo, com vergonha.
_Você vai enfrentar isso._ Ricardo sorriu e agradeci a Deus por ter deixado Ricardo para cuidar de mim. _E pode enfrentar melhor com macarrão, que tal?_ ele pegou meus braços delicadamente e me fez dar uma meia volta e mostrou-me o restaurante italiano do outro lado da rua._ Que tal a gente comer muita massa com molho?_ falou com a respiração no meu pescoço.
_Pode ser..._ sorri de lado e depois ri sentindo uma corrente de alívio.
_Então, vamos?_ ele me deu o braço com um trejeito de palhaço, caricaturando a situação.
Sentamos em uma mesa próximo a uma área ventilada à pedido de Ricardo ao garçom, para que ficássemos em um lugar onde eu me sentisse bem.
_E a sua faculdade? Desistiu?_ Ricardo estava motivado a mostrar interesse sobre a minha vida.
_Não..._ balancei a cabeça para os lados. _Nem consegui pensar nisso...
_Por que não se matricula em um cursinho?
_Eu sei, mas parei de trabalhar.
_Não seja por isso! Eu posso muito bem pagar.
_Não quero mais dar despesas...
_Quem disse que não vou cobrar? Você pode me ajudar em casa, quando eu precisar de uma secretária, que tal?_ propôs.
_Hum... Seria bom para mim. Eu preciso ocupar minha cabeça..._ respirei fundo, olhando para o vazio atrás de Ricardo.
_Eu gosto quando olha nos meus olhos._ Ele pediu e eu o encarei em silêncio.

As olheiras desapareceram de seu rosto jovem e bonito. Talvez, por ele ser marido da minha irmã, nunca me animei a analisá-lo muito, mas era inevitável não admirar a beleza própria, um charme particular. Eu gostava muito do garotão ainda escondido no corpo de homem. Havia nele uma virilidade energética que eu nunca encontrei em Guimarães, nesse eu senti uma mansidão, como se tudo já houvesse sido descoberto.
Ricardo se perdeu me olhando e eu me senti envergonhada.Uma onda elétrica me percorreu. Um arrepio na nuca, que era aquilo?
_Seu pedido, senhor._ o garçom nos salvou com o macarrão.
_Hum... Mama mia!_ Ricardo fez uma cara de menino faminto e atacou o macarrão.
Eu sorri e achei-o lindo sulgando fio por fio. Era divertido.

19.10.06

Capítulo 28: (Ricardo)

Notei que Fátima estava meio dispersiva, enquanto colocava a mesa do jantar. A gente sente quando a pessoa está adiando para nos dizer algo. Disse-lhe que a conhecia tão bem para saber que estava agoniada.
_Ah! Meu filho, eu não gosto de te preocupar..._ colocou o suco no meu copo._ Você já tem tanta coisa na cabeça, mas tem uma coisa muito séria acontecendo...
_ O quê?_ franzi a testa.
_É com a Dani._ ela ficou parada à minha frente, medindo palavras. Puxei uma cadeira ao meu lado e pedi que sentasse. Quando ela falou o nome de Daniela senti um aperto no peito, um frio na barriga, uma sensação estranha._ Que tem ela?
_Ela infrentou tudo muito bem no início, lembra? Só que agora, não sei se reparou, ela está emagrecendo muito... Vive vomitando, tendo tonteira... Ontem, ela caiu da escada.
_..._ fechei os olhos e suspirei fundo.
_A Dani falou para o senhor que ia largar o emprego de secretária para cuidar da Angélica, só que isso não impede que ela saia de casa, mas já reparou que faz dois meses que ela está infurnada aqui?
_É tanta coisa... que nem me dei conta...
_E ela está com problemas sérios para dormir. Sempre chora muito sozinha no quarto. Mas o que mais me angustia..._ ela mostrou o braço._ olha como fico toda arrepiada só de falar..._ deu uma pausa._ Ela pede para eu ficar vigiando ela dormir e diz: "Não deixa eu morrer, eu não quero acordar morta!".
_Ela está com síndrome do pânico._ conclui.
_Eu não sei o nome disso, mas eu acho que ela está precisando muito da sua ajuda. A Alice não está mais aqui, sabe se lá quando ela vai acordar daquele coma... Só que a Dani ficou aqui, vivinha! Você também vive infurnado nessa casa, parece que a vida de vocês dois parou no tempo.
_E o que quer que eu faça? Saia para beber com os amigos, enquanto Alice está em coma?
_Ricardo, se você afundar também, não terá nenhum dos dois para puxar o outro e quando eu falo dois, me refiro a Daniela, porque essa eu sei que ainda tem chance.
_Eu perdi a fome._ afastei o prato._Onde ela está?
_No quarto. Não comenta nada que eu falei...
Levantei-me e fui direto até onde ela estava. Bati na porta para avisar que estava entrando... A luz estava apagada, mas ouvi os soluços. Acendi a luz e não vi ninguém na cama. Enconstei a porta e caminhei até a janela que dava para a área de serviço.
_Dani?_Abaixei-me diante dela, encolhida no canto, com o braço machucado pela queda.
_Me deixa sozinha, por favor...
_Não posso... Eu estava precisando de você...
Ela olhou-me com os olhos inchados.
_Para quê?_ limpou o rosto molhado com as costas das mãos.
_Queria que traduzisse umas coisas para mim.
_Ricardo, não dá para perceber que eu não estou com cabeça?
_Mas é urgente!
Ela respirou fundo e se levantou:
_Tudo bem. Onde estão?
_No meu quarto._ Levantei também e caminhamos para lá. Na sala, passei por Fátima e pedi para ela fazer um chá para nós e ela entendeu meu recado.
_Então, o que é..._ Dani ficou de pé me encarando, quando encostei a porta.
Eu não pensara em nada rápido, não tinha nenhum papel como desculpa, nenhum documento:
_Queria que..._ cheguei bem perto e descruzei os braços dela, para diminuir a barreira entre nós._ Me traduzisse o que está se passando com você.
_Ah! Então só queria me tirar do quarto?_ ela ameaçou sair, mas a segurei pelo braço e vi que já estava chorando.
_Vem cá..._ abracei-a por um longo tempo. Realmente estava tão magra e fraca.
Fátima apareceu na porta do quarto com o chá. Pedi para ela colocar em cima do criado mudo.
_Então, você foi contar tudo para ele,né?_ Daniela resmungou ainda abraçada a mim.
_Eu só quero o seu bem, menina._ Fátima se redimiu e eu fiz sinal para ela ir e não levar aquilo em consideração.
_Vamos tomar?_ Segurei seu rosto e ela fez que sim com a cabeça.
Tomamos em silêncio. Logo o chá de maracujá com casca de maçã começou a acalmá-la. Fátima sempre fazia para Alice, quando ela estava estressada.
_Eu acho que seria legal você ir a um psicólogo. Vou procurar um amanhã.
_Eu não preciso, não estou maluca.
_Você vai..._ falei firmemente olhando nos seus olhos e pus minha mão em cima da dela._ Eu vou com você.
_Acho que Alice não vai acordar mais..._ Daniela deixou o corpo cair para o lado e ajeitou a cabeça no travesseiro.
_Mas você ainda está aqui! E eu quero que fique bem._ apoiei a cabeça em um das mãos e me deitei ao seu lado._ Não gosto de te ver assim..._ tirei o cabelo do seu rosto._ Você precisa dormir para descansar.
_Eu sinto que eu vou morrer também...
_Não vai, porque você tem que ficar para me ajudar._ levantei-me e puxei o edredom para cobri-la._ Dorme aqui hoje, esse quarto é mais fresco.
_Não, não posso ficar sozinha. Se eu começar a morrer e..._ havia pânico nos seus olhos.
_Eu vou ficar com você, então. Prometo que não vou roncar._brinquei, tentando manter o humor.
Tirei o chinelo e deitei ao seu lado. Ela se sentiu estranha, olhando todos os meus gestos.
_Vamos ver que filme legal está passando?_ peguei o controle e liguei a tv.
Ela ficou olhando para o filme por um tempo, muito dispersiva:
_Por favor, fica aqui, então, tá..._ seus olhos estava pesados de sono.
_Eu estou aqui._ afastei seu cabelo para o lado e beijei seu rosto. Não consegui dormir. Fiquei observando-a ali ao meu lado. Onde estava Guimarães que não ajudava a própria namorada? Ele não a amava, nem tinha o mesmo carinho por Daniela que eu tinha. Como ele pode viajar à negócios e deixá-la assim?
De madrugada, várias vezes, Daniela teve pesadelos e rolou pela cama, suada. Puxei-a para perto e a envolvi com meus braços. Nos cobri com o edredom e desde então ela dormiu tranqüila, aninhada em meu corpo. Aquela noite não fez bem apenas a ela, mas a mim também, dormi pela primeira vez profundamente e acordei com o sol entrando muito dourado no quarto.
Ela abriu os olhos e se deu conta de que eu estava observando-a dormir:
_Ai não..._ ela puxou o lençol e tampou a cabeça._ Eu estou horrível...
_Ah! Está mesmo!_ puxei o lençol e fiz cócegas nela.
_Pára! Pára!!!!_ implorou sentando-se._ Eu disse pára!_ pediu e vi o primeiro sorriso da manhã em seu rosto, os olhos muito inchados ainda tinha o brilho de vida que restava.
_Acordei com uma fome. Vamos tomar café?_ comentei esparramado na cama. Espreguicei-me.
_Eu não devia ter dormido aqui, isso não é certo!
_Ah! É, principalmente depois de tudo que a gente fez a noite toda!
Ela fez um ar sério.
_Estou te zoando, boba!_ fiz mais cócegas e ela caiu na cama._Nossa, como você é fraquinha.
_Pára, Ricardo!_ pediu e eu parei.
O café da manhã já estava caprichado na mesa, como eu pedira para Fátima. Aguardei Daniela no estacionamento, enquanto ela terminava de se arrumar.
_Nem demorei muito, viu?_ ouvi uma voz atrás de mim que me fez parar de conversar com o seu Antônio, o jardineiro.
Virei-me e meu coração deu um descompasso. Ela estava com o rosto iluminado pelo sol. Usava um vestido azul claro:
_Nossa, você está bonita._ pensei alto.
_São os óculos escuros._ brincou se aproximando e entrando na zona de sombra do estacionamento. O perfume doce era delicioso.
_Obrigada..._abriu a porta do carro e entrou.
Eu me senti idiota, com uma sensação de ter sido ridículo. Não sei o que Fátima colocou naquele chá,mas eu acordei com um ânimo, uma energia, uma alegria. Até me condenei por estar feliz, é como se fosse injusto com Alice. Mas não podia negar, eu estava tão bem.

16.10.06

Capítulo 27 : [continuação] (Daniela)

Fátima estava empenhada na tarefa de cuidar de mim, com uma semana de sopinhas e mimos eu já estava novinha. Só reclamava que eu não devia ficar para lá e para cá pela casa com aquele gesso pesado.

Ricardo também tornou-se seu filho mais que nunca. Alice não acordara e ele se desdobrava no trabalho, mas ao chegar em casa sempre era obrigado por nós duas a se alimentar e dormir.

O outro que passou a frequentar mais a casa, para manter nosso pacto, foi Guimarães, esse sim muito mais abatido. Mas eu não queria pensar sobre ele, apenas sobre o meu futuro. E falando no amanhã, eu não sossegara até que Fátima atendesse meu pedido. Eu queria que ela jogasse as cartas para mim. Desde que descobri que ela era neta de uma cigana, a importunei.

Numa noite, em que eu estava na sala, lendo no sofá, ela sentou-se à minha frente com o bolo de cartas nas mãos. Senti um frio na barriga e sorri. Ela com seus anéis grandes embaralhou tudo calmamente. Eu não atrapalhei sua concentração e sentei prontamente.

_Dani, você queria saber como ficará sua situação com o Guimarães..._ ela dispôs o baralho e pediu para eu puxar três cartas. Escolhi uma do meio, outra da ponta e mais uma do meio._... Esse é o namorado._ virou uma carta de um cupido e um homem entre duas mulheres._ Você está entre o ciúme e a inveja. Entre o prazer e a moral. Isso vai te pedir muitas forças para se equilibrar..._ Virou mais uma carta._Essa carta é o sol e esses dois gêmeos representam o princípio feminino e masculino. Você vai começar a viver um momento tranqüilo e calmo na sua vida.

_Que bom!_ sorri e fiquei aguardando ansiosa pela terceira carta, que parece não ter agradado Fátima._ O que está vendo aí? Morte? É a minha irmã? Fala?

_Dani, esse momento bom vai passar...

_Para variar..._ comentei irônica.

_E virá uma separação.

_Outra? Mas com quem?

_Você vai se apaixonar por alguém e vai ter um fim bastante doloroso. Deve estar atenta à presença de uma oponente não muito brilhante, mas que está profundamente empenhado em atingi-la.

_Deve ser o Guimarães, a Alice e...

Fátima recolheu as cartas, assim que Ricardo chegou na sala. Tentou disfarçar, mas ele percebeu o que fazíamos.

_Ela também tirou para você?_ Ele sentou-se ao meu lado depois que Fátima passou direto para a cozinha.

_É, mas vem coisa ruim por aí._ comentei com medo.

_Não pensa assim._ ele virou o rosto para o meu lado. _Qual carta te deixou tão abalada?

_Era o cavaleiro de paus anunciando separação... E não era do Guimarães...

_Eiii como você é rápida! Já arrumou outro e nem nos contou?_ ridicularizou.

_Nãoooo!_ empurrei seu braço. _ Agora fala aí o que ela disse para você?

_Que eu ia ficar melhor depois de tudo isso e que ia ficar bem amorosamente. Bom, quem sabe Alice acorde e...

_Mas era a Alice que estava nas cartas...

_Sei lá..._ deu de ombros._ A Fátima não disse nada.

Eu não sei, algo estava mal explicado. Fátima saíra rápido demais de perto de nós. Acho que alguma coisa naquelas cartas ela não quis nos contar.

_Eu estou cansada._ deitei novamente e fechei os olhos._ Eu gostaria de ser uma menina de 5 anos... queria que meu pai me levasse no colo para o quarto..._ sonhei alto.

_Será que eu tenho a cara de já ser tão velho?_ Ricardo levantou-se e se inclinou para me pegar no colo.

_Não... Não faz isso..._ pedi, esperneando.

_Calma!Calma, senão vai cair!_ pediu comigo suspensa no ar. A falta da gravidade me trazia insegurança.

_Não precisa..._ falei, mas já estava me carregando até o meu quarto.

_Eu tenho que treinar, para quando minha filha crescer..._ ele disse e eu não relutei mais.

Chegando perto da cama, ele me deixou sobre o colchão.

_Vai ficar tudo bem..._ ele se inclinou para me dar um beijo, quando eu ia arrumar o travesseiro embaixo da minha cabeça, meus lábios encostaram perto da sua boca sem querer. Ele virou e me beijou a maçã direita do rosto.

_Você é um bom pai._ disse docemente.

_E você está sendo uma ótima companhia nestes últimos dias... Eu não sei como ficaria se tivesse sozinho...

_Conta comigo..._segurei sua mão e meus olhos ficaram pesados. Não sei por quanto tempo ele ficou ali me olhando.

11.10.06

Capítulo 27: (Daniela)

Eu já estava naquele hospital havia três dias. O acidente pareceu não apenas girar o carro no ar, mais virar também a minha vida de cabeça para baixo. Agora eu já podia ficar de pé e ir ao banheiro sozinha. Felizmente hoje poderia sair daqui.
Caminhei pelo corredor, em busca do número que Ricardo havia me informado ser o da minha irmã. Eu precisava vê-la. Quando abri a porta e entrei, dei de cara com Guimarães, que pareceu levar um choque e se afastou de Alice. Ricardo estava na administração, assinando tudo que era necessário para eu poder ir para casa e Guimarães devia ter aproveitado para ficar à sós com Alice..
Ele tentou manter uma conversa amistosa, perguntou sobre meu pé engessado.
_Eu pensei que ela fosse morrer._ cortei-o, mostrando que não estava para um papo fingido.
_Eu ainda tenho esse medo.
_Ela vai acordar, ela me prometeu que faria isso por você._ olhei-a imóvel na cama.
_O que ela falou?
Virei-me para ele, estava cheio de olheiras, com o terno em desalinho, cansado.
_Tudo bem se não quiser falar... _ ele disse.
_Ela ficou com medo de te perder. _contei-lhe.
_Ela sempre me teve._ ele respirou bem fundo e sentou, absolutamente rendido de todas as forças para lutar.
_Alice estava com medo de te perder para a morte, de não está aqui mais para viver ao seu lado.
_Isso é uma loucura. O cara que é marido dela é meu melhor amigo!_ era possível ver desespero na sua voz.
_Vocês se amam e não é uma coisa com que nem eu, nem Ricardo, podemos lutar.
_Nem eu..._ riu da própria fraqueza._ Eu tentei de todas as formas...
_Esquecê-la? É, eu sei..._ deixei implícito que sabia que ele me usara para tirá-la da cabeça. Eu mereço!
_Desculpe, desculpe... Eu estava gostando do nosso...
_Eu não quero ouvir nada disso... Se não se importa. _ cortei-o gélida.
_Claro, tudo bem. _ constrangeu-se.
_Agora como pretende vir aqui todos os dias, sem dar na telha?_perguntei.
_Não sei._ ele ainda não havia pensado nisso.
_Teremos que fingir._ sugeri.
_Fingir? _ele franziu a testa.
_Se Ricardo achar que nós estamos juntos, entenderá você vindo comigo vê-la.
_Isso não é justo. _desconsiderou._Eu não quero enganar o meu amigo.
_Não pense que vai ser fácil para mim compactuar com vocês dois, porque ele não vai me perdoar, quando descobrir!
_Se não quiser, não precisa, Daniela...
_Eu prometi a ela._fui taxativa.
_E como fazemos, então?_ por fim concordou e ali vi que estava disposto a tudo a lutar pela minha irmã.
A porta se abriu e era Ricardo, com flores nas mãos. Explicou que chegaram para Alice, colocou em um jarro ao lado da cama. Guimarães e eu ficamos quietos, olhando-o cuidar das rosas amarelas e pensei que ele era legal demais para descobrir que mentíamos.
Estiquei a mão e dei-a para Guimarães, que a olhou e depois me fitou com os olhos medrosos. Apertei-a e nós sabíamos que começava ali o nosso pacto de silêncio.
Ricardo virou-se, seus olhos se fixaram em nossas mãos dadas e ficou sério. Ele entendeu o recado simbólico que eu e Guimarães deixávamos.
_Eu preciso ir._ virei-me para Guimarães e o beijei nos lábios rapidamente.
Ricardo adiantou-se até a porta e Guimarães falou que também sairia, pois precisava resolver algumas coisas no escritório. Antes de ir, me puxou para um abraço e sussurou no meu ouvido:
_Obrigado.
_Torça para isso acabar logo. _aconselhei.

10.10.06

Capítulo 26: (Ricardo)

Quando cheguei ao hospital, o primeiro que vi foi Guimarães, sentado na sala de emergência, com a cabeça enfiada nas mãos. Aquilo não me parecia nada bem. Vendo meu ar de desesperado, logo ele fez sinal para eu me acalmar e sentar também. Explicou que Alice estava em coma e Daniela parecia se recuperar bem.

_Meu Deus, como isso foi acontecer?_ perguntei ainda sob o efeito da notícia.

Conseguimos autorização para ver Alice, que realmente estava em coma, no sono mais profundo possível. Passei a mão em seu rosto e fiquei pensando de repente que a nossa vida não ia bem, que eu estava encarando tudo como uma grande obrigação. Eu sei que não é a hora, nem o momento de sentir isso, mas esse sentimento veio junto com a culpa. Uma culpa infundada, como se ela não estivesse que estar ali, nós não tivéssemos que estar vivendo isso tudo. Ricardo percebeu que eu estava estafado e pediu para eu ir até em casa comer alguma coisa. Ele se prontificara a ficar.

_Pô, cara, nem sei como te agradecer!_ Abracei-o._ Você é como um irmão para mim. Obrigado por ter essa consideração pela Alice, ela nem é nada sua...
_Que isso!
_Eu vou ver a Daniela._ comuniquei e sai do quarto.

O corredor longo me levou até um outro quarto, onde Daniela estava jantando.
_Nem me esperou para o banquete?_ironizei e ela sorriu ao me ver. Estava com a mão enfaixada e a perna direita engessada, mas parecia muito bem, para quem sobreviveu ao acidente.
_Que bom que está aqui._ ela pegou a minha mão e eu me inclinei para dar um beijo na sua testa._ Vocês quase me matam de susto.
_Eu cheguei a pensar que...
_Psiuuu. Não fala nada._ pedi falando baixinho.
_Tive medo do carro explodir...
_Mas agora está segura._ lembrei-a e seus olhos azuis ficaram me fitando.
_Hoje, eu vejo que morrer faz diferença, eu ainda tenho tanta coisa para viver.
_Claro que tem! Ainda vai casar, ter uma família... Não é hora de fazer às pazes com Guimarães? Ele está sendo muito legal. Agora está lá com Alice.
_Está é? Hum... _ virou o rosto para o lado.
_Hei?! Você não está agora com ciúme da sua irmã, né?_ ri._ Ela está em coma..._ contei e isso não era engraçado.
_Eu não estou bem..._ ela passou as mãos nos olhos e vi que estava chorando.
_Que foi? Quer que eu chame o médico?
_Não, não é nada. Só estou um pouco abalada.
_Oh, não fica assim. _abracei-a e beijei sua cabeça, parecia tão frágil._Vou te levar para casa logo, logo, tá?_ falei bem perto do seu rosto.
_Obrigada._ ela tocou-me as bochechas com a mão fria._Você não merece nada disso.
_Hei, eu sou forte, não se preocupe._ sorri.
_Eu sei que é. _ ela ficou me analisando em silêncio.

3.10.06

Cap 25: (Daniela)

Tudo aconteceu tão rápido.
Alice me dizia, enquanto me dava uma carona para a empresa, que hoje estava com a agenda lotada de compromissos. Foi quando ouvimos o estrondo. Por alguns segundos a vida girou lentamente.
O carro que vinha na direção oposta em alta velocidade, empurrou o nosso para longe e paramos de cabeça para baixo, em meio às ferragens.
Milhares de pequenos vidros enchiam minha blusa. Me contorci, mas não conseguia tirar as pernas, nem Alice, que estava com o rosto ensanguentado:
_Ai..._ ela gemeu e me olhou aterrorizada.
_Calma, deve ter quebrado alguma parte do corpo. Fica quieta._ aconselhei, sem poder me mexer muito. _ A gasolina... E se o carro explodir?
_Não! Eu não quero morrer._ ela começou a ficar desesperada. Naquele momento, a sua agenda não significava mais nada, uma única fagulha nos levaria ao pó.
_Psiu... Não fique nervosa..._ peguei sua mão ao lado da minha e apertei com força._ vamos sair dessa.
_Tenta pegar meu celular..._ ela aguentou firme a dor e tentou pensar friamente.
Consegui pegar o telefone, ela pediu para discar para o número 9 e eu ouvi a voz do outro lado. Era Guimarães. Coloquei no ouvido dela:
_ Gui, o carro bateu, nós estamos machucadas, eu não quero morrer, vem me buscar, por favor..._ ela começou a chorar.
_ Alô? Guimarães?_ tomei a rédia da situação e dei as coordenadas para ele. Depois, pedi mais uma vez que parasse de chorar, porque isso a fazia sangrar mais no rosto.
_Não podíamos ter usado o celular, é perigoso...
_Eu precisava falar com ele..._ ela tentou se acalmar, olhou-me meio sonolenta.
_A vida pode acabar assim num piscar de olhos..._ comentei._ O que estamos fazendo com ela?
_Eu não sei... Eu to fazendo tudo errado..._ ela segurou minha mão._ eu quero sair daqui viva.
_Vai sair._ sorri e percebi que ela estava ficando inconsciente.
Alguns curiosos começaram a rodear o carro e perguntar se estávamos bem.
_ Alice, não dorme, fica me ouvindo, olha para mim...
_..._ ela apenas me mirava com esforço.
_Você quer ficar com Guimarães, não é?_ esse era o único assunto que a motivaria, por mais que não fosse fácil usá-lo._ Você gosta dele?
_Muito, eu o amo...Mas e o Ricardo?
_Conta para ele.
_Não! Não conta nunca para ele... Por favor..._apertou minha mão.
_Tá, tá tudo bem...
_Jura?!
_Juro._prometi._Não vou contar.
_Se eu morrer..._ fechou os olhos e abriu de novo._ você nunca vai contar?
_Não. Mas você me promete que vai viver?_ comecei a ficar com medo de perdê-la, não queria ficar sem minha irmã, um desespero me bateu, ela já me fizera sofrer, mas eu estava tão perto de ficar sozinha._ Alice, Alice, promete para mim que vai viver para lutar? Lutar pelo seu Gui..._ toquei no seu rosto molhado de sangue e comecei a chorar._ Alice?

Capítulo 24: (Ricardo)

_Você parece estranha. Aliás, vocês parecem estranhos._ ri e me joguei no sofá. Ajeitei a cabeça em uma almofada.
Daniela ficou me olhando e não resistiu, perguntou porque eu havia dito aquilo.
_Sei lá, você briga com Guirmarães, trata ele bem, daqui a pouco eu volto e ele já foi...
_Podemos não falar disso?_ ela bebeu o resto do vinho da taça e olhou para mesa._Não vai querer comer?
_É._ levantei-me e me arrastei até a cadeira, por pura obrigação.
_Ricardo, eu vou embora daqui.
_Ãnh? Embora, mas para onde?
_Não sei, acho que acabo provocando muitas brigas aqui, posso alugar um canto...
_Por mim não há nenhum problema._ respondi._ Na verdade, você acaba sendo minha maior companhia.
Meu cachorro latiu.
_Você também, garotão!_ afaguei a cabeça dele e dei uns tapinhas para que se deitasse.
_Obrigada. Eu estava pensando em arrumar um lugar...
_Vai tudo ficar bem, as coisas estão se ajeitando, daqui a pouco seremos uma família...
_É interessante como você dá valor a isso: família.
_Dou. Porque quando eu chego de uma batalha cambial, cheia de cotações, bolsas, transações e todo aquele inferno por fazer as empresas renderem..._ ri_... eu quero sentir o calor da casa, ouvir vozes amigas, ligar a Tv e ficar perto de pessoas que me deixam seguros...
_Nossa que bonito, se não te conhecesse, diria que era uma mulher.
_Ah!_ taquei-lhe uma azeitona da salada._ Tá me zoando.
_Eu?_ devolveu a azeitona._ O poeta é você._ riu alto.
_Eu sei que já deve estar cheia de eu dizer isso... E dos outros ficarem repetindo... Mas você é tão diferente...
_Da minha irmã? Tá eu sei._ ela fechou o sorriso e fez um semblante de aborrecimento, por tocar naquele assunto.
_Desculpe, não é por mal que digo._ coloquei minha mão sobre a dela e a segurei._ É só porque ela poderei ter muitas coisas que você tem...
_Tipo quais?_ ela inclinou o rosto para o lado e apoiou a cabeça na outra mão semi fechada.
_Não sei, talvez a alegria, a simplicidade de ver as coisas...
_Nesse caso você queria que ela fosse eu..._ falou baixinho.
Não respondi, continuei a comer e ela não insistiu, gostava disso, de não ter coesão nossas conversas, simplesmente eu podia silenciar.