Eu era um objeto destoante naquela sala de cirurgia. Um armário em um canto, uma porta por onde os outros passavam. Estava petrificado, vendo os médicos trabalharem para salvar Alice e o bebê, que eu ainda nem sabia o sexo. Ela dizia que preferia surpresa.
Imerso naquela atmosfera de éter e de objetos metálicos tintilando, eu tive os mais macábros pensamentos.
As pessoas que narram experiência de quase morte, revelam que se viram do lado de fora do próprio corpo. Eu me sentia assim, perdido entre aquelas paredes brancas, olhando tudo em terceira pessoa, sem nenhum poder de ação. Só me restava manter minha fé de que ela ficaria bem.
Não sei se a situação limite em que eu me achava fora a responsável por aflorar tudo em mim, como um bote de ar que abre no fundo do oceano e rapidamente chega a superfície. Assim subiram todos os meus sentimentos, o que me provocou muita angústia.
Eu não conseguia parar de desejar que ela ficasse bem, só que esse desejo não era de quem a amava e precisava ficar com Alice para sempre. Era um desejo de alguém que a metera naquilo tudo e se sentia responsável por ela estar com a vida em risco. Parece que a colocaram sobre os meus cuidados e eu não soubera protegê-la suficientemente. Só que isso era loucura, porque já era bem grandinha.
Todos aqueles meses, queira eu enxergar isso ou não, fora em torno de contornar aquela problemática: ela estava esperando um filho meu e eu tinha que dar todo o apoio. Só que esse apoio não deveria incluir um casamento às pressas, ela tomar conta da minha casa, da minha vida. Por outro lado, que eu podia fazer? Era quase uma conseqüência natural: se nós dizíamos que nos amávamos e ela estava esperando um filho, por que não seguirmos o figurino?
Minhas mãos suadas e o turbilhão de hipóteses me fez pedir para sair da sala. Eu estava zonzo, não me sentia bem.
Uma enfermeira me acompanhou até a sala de espera, onde encontre Fátima e Daniela. A mulher pediu que uma das duas fosse buscar um café para mim, o que Fatinha, prontamente atendeu.
Enquanto a enfermeira se afastava, Daniela olhou-me, para ver se capturava algo pela minha expressão de desterro.
_E o bebê?
_Eles vão tentar salvar..._ apoiei os cotovelos nos joelhos e afoguei o rosto nas mãos. _Eu só quero que tudo termine bem... logo.
_Vai terminar..._ ela passou a mão no cabelo da minha nuca._ Ela é forte.
_É._ apoiei a cabeça na parede e fiquei olhando o teto._ Ela é mais forte que eu. Aliás, eu sempre quis ter um pouco daquela força... Acho que busquei isso nela. Sua irmã me faz me sentir seguro, ela pensa em tudo, faz tudo sem me perguntar, eu não tenho que ter dúvidas...
_Mas depois de experimentar ter isso, você gostou?
Virei o rosto para o lado e olhei-a em cheio. Ela parecia, com aquela frase, me demonstrar que estava naquela sala de cirurgia comigo, lendo todos meus pensamentos.
_Por que a pergunta?
_Nada._ ela deu um discreto sorriso e aquietou-se.
Horas se passaram, até que o médico chegou, com um semblante de cansaço.
_E aí? Como eles estão?_ levantei-me e temi aquela resposta como nunca.
26.8.06
23.8.06
Capítulo 11: (Daniela)
_ Ricardo, eu não quero mais falar sobre isso. Você não vê que já estou bastante machucada?_ perguntei.
_Eu sei, precisa fazer um curativo...
_Não! Estou falando machucada por dentro!_ cortei-o impaciente.
_Bom, então, acho melhor deixá-la sozinha. Eu vou para o trabalho.
_Pode me dar uma carona?_ pedi.
_Você vai querer trabalhar assim?_olhou-me de baixo a cima.
_Não assim, preciso de cinco minutos. Me espera no carro._ pedi, me vendo tão horroroza no reflexo do vidro da janela. Fechei os olhos. Pus as mãos abaixo da minha nuca. Respirei fundo.
_Ok_ ele se retirou.
Entrei no banheiro e lavei o rosto. As lágrimas não paravam de cair, eu estava sem controle nenhum. As mãos levemente trêmulas ainda conseguiram passar um pó compacto no rosto vermelho.
A que chegou no carro era apenas um corpo ambulante, eu mesma não estava em mim. Não conseguia prestar a menor atenção na conversa que Ricardo tentava travar para amenizar o clima. Olhei para frente sem prestar atenção no caminho.
Chegando na empresa, entreguei os relatórios para meu chefe, que me olhou por trás do rosto de seriedade que eu tentava manter a todo custo:
_Acho que deveria ir para casa. Você tem que ser a imagem da empresa, eu sou a empresa e não quero que eu seja represantado por esse rosto de desterro._ falou secamente.
_Eu posso perfeitamente ficar.
_E eu posso perfeitamente querer que não fique._ consertou ríspido._ Me passe para o Ricardo e depois pode ir.
Eu sentei, sentindo meu corpo pesado. Achei aquilo estranho. Passei o telefone, mas não desliguei imediatamente para confirmar minha surpresa:
_Ricardo?! Oi, rapaz!_ ouvi a voz dele comprimentando meu cunhado._ Fiz tudo como me pediu.
_Obrigado, as coisas saíram do controle. Mas ela ficará bem.
_E você? Por que não tira também um dia de folga? Eu toco as coisas por aqui.
_Não posso, eu tenho muito trabalho e no mais não quero enfrentar aquele clima que está na minha casa. Eu já não tenho nem mais vontade de voltar para lá... Depois a gente conversa...
Eu desliguei lentamente o telefone, para que não percebessem que eu ouvira tudo.
Recolhi minhas coisas e vaguei pela rua. Estava um sol vacilante, sem muita força, naquela manhã. Sentei em um banco na praça. Algumas crianças brincavam na gangorra. Os risos enchiam o ar de uma doce alegria, que eu tanto queria de volta para mim.
Lembrei de Marcos, nos Estados Unidos, talvez tivesse sido melhor tentar continuar lá, clandestinamente. Logo a briga de manhã me veio a mente, uma vontade de chorar chegou à tona com algumas lágrimas, que heroicamente não deixei cair.
Entre as piores hipóteses, existia aquela: voltar para casa. Chegando lá, deitei na cama de sapato e tudo. Fátima olhou-me de canto de olho, sentou na cama da frente:
_As coisas não vão bem para você faz tempo, né, menina?_ sua voz era tão acolhedora.
_..._ sorri e olhei para o chão.
_Mas nada é a toa. Nada. Você precisava vir para cá...
_Eu não tive muita opção._ dei de ombros.
_Momentos muito bons virão depois disso tudo._ ela levantou-se e afastou meu cabelo do rosto._ Nós estávamos esperando por você faz tanto tempo._ aquilo me pareceu místico.
_ Por quê?_ perguntei.
_Porque as pessoas atravessam o caminho uma das outras com algum motivo.
_Espero que o meu seja bom._ ri irônica.
_Descansa._ ela fechou a porta.
_Fátimaaaaa._ ouvi um berro vindo do andar de cima e em poucos minutos Fátima apareceu na porta outra vez._ Daniela, não sabe o que aconteceu!_ estava assustada e nervosa.
_ O quê?_ sentei-me.
_A sua irmã está lá no quarto chorando, está tudo sangrando e...
Nem esperei ela terminar, corri até o andar de cima e entrei no quarto quase na velocidade do pensamento.
Ela olhou-me nos olhos e vi suas mãos sujas de sangue.
_O que está acontecendo?_ perguntou em pânico.
_Não se preocupe, tudo ficará bem._ tranqüilizei-a._ Fátima, ajude-a a tirar essa roupa._ ordenei._ peguei o telefone na cabeceira da cama e fui até o corredor._ Ricardo, alô? A sua mulher está perdendo o bebê.
_Quê?
_Eu sei, precisa fazer um curativo...
_Não! Estou falando machucada por dentro!_ cortei-o impaciente.
_Bom, então, acho melhor deixá-la sozinha. Eu vou para o trabalho.
_Pode me dar uma carona?_ pedi.
_Você vai querer trabalhar assim?_olhou-me de baixo a cima.
_Não assim, preciso de cinco minutos. Me espera no carro._ pedi, me vendo tão horroroza no reflexo do vidro da janela. Fechei os olhos. Pus as mãos abaixo da minha nuca. Respirei fundo.
_Ok_ ele se retirou.
Entrei no banheiro e lavei o rosto. As lágrimas não paravam de cair, eu estava sem controle nenhum. As mãos levemente trêmulas ainda conseguiram passar um pó compacto no rosto vermelho.
A que chegou no carro era apenas um corpo ambulante, eu mesma não estava em mim. Não conseguia prestar a menor atenção na conversa que Ricardo tentava travar para amenizar o clima. Olhei para frente sem prestar atenção no caminho.
Chegando na empresa, entreguei os relatórios para meu chefe, que me olhou por trás do rosto de seriedade que eu tentava manter a todo custo:
_Acho que deveria ir para casa. Você tem que ser a imagem da empresa, eu sou a empresa e não quero que eu seja represantado por esse rosto de desterro._ falou secamente.
_Eu posso perfeitamente ficar.
_E eu posso perfeitamente querer que não fique._ consertou ríspido._ Me passe para o Ricardo e depois pode ir.
Eu sentei, sentindo meu corpo pesado. Achei aquilo estranho. Passei o telefone, mas não desliguei imediatamente para confirmar minha surpresa:
_Ricardo?! Oi, rapaz!_ ouvi a voz dele comprimentando meu cunhado._ Fiz tudo como me pediu.
_Obrigado, as coisas saíram do controle. Mas ela ficará bem.
_E você? Por que não tira também um dia de folga? Eu toco as coisas por aqui.
_Não posso, eu tenho muito trabalho e no mais não quero enfrentar aquele clima que está na minha casa. Eu já não tenho nem mais vontade de voltar para lá... Depois a gente conversa...
Eu desliguei lentamente o telefone, para que não percebessem que eu ouvira tudo.
Recolhi minhas coisas e vaguei pela rua. Estava um sol vacilante, sem muita força, naquela manhã. Sentei em um banco na praça. Algumas crianças brincavam na gangorra. Os risos enchiam o ar de uma doce alegria, que eu tanto queria de volta para mim.
Lembrei de Marcos, nos Estados Unidos, talvez tivesse sido melhor tentar continuar lá, clandestinamente. Logo a briga de manhã me veio a mente, uma vontade de chorar chegou à tona com algumas lágrimas, que heroicamente não deixei cair.
Entre as piores hipóteses, existia aquela: voltar para casa. Chegando lá, deitei na cama de sapato e tudo. Fátima olhou-me de canto de olho, sentou na cama da frente:
_As coisas não vão bem para você faz tempo, né, menina?_ sua voz era tão acolhedora.
_..._ sorri e olhei para o chão.
_Mas nada é a toa. Nada. Você precisava vir para cá...
_Eu não tive muita opção._ dei de ombros.
_Momentos muito bons virão depois disso tudo._ ela levantou-se e afastou meu cabelo do rosto._ Nós estávamos esperando por você faz tanto tempo._ aquilo me pareceu místico.
_ Por quê?_ perguntei.
_Porque as pessoas atravessam o caminho uma das outras com algum motivo.
_Espero que o meu seja bom._ ri irônica.
_Descansa._ ela fechou a porta.
_Fátimaaaaa._ ouvi um berro vindo do andar de cima e em poucos minutos Fátima apareceu na porta outra vez._ Daniela, não sabe o que aconteceu!_ estava assustada e nervosa.
_ O quê?_ sentei-me.
_A sua irmã está lá no quarto chorando, está tudo sangrando e...
Nem esperei ela terminar, corri até o andar de cima e entrei no quarto quase na velocidade do pensamento.
Ela olhou-me nos olhos e vi suas mãos sujas de sangue.
_O que está acontecendo?_ perguntou em pânico.
_Não se preocupe, tudo ficará bem._ tranqüilizei-a._ Fátima, ajude-a a tirar essa roupa._ ordenei._ peguei o telefone na cabeceira da cama e fui até o corredor._ Ricardo, alô? A sua mulher está perdendo o bebê.
_Quê?
21.8.06
Capítulo 10: (Daniela)
_Não foi trabalhar hoje mais cedo?_ perguntei a minha irmã, quando ela se sentou à mesa do café da manhã.
_Não, hoje eu não estou com vontade._ respondeu esnobe, sem olhar-me.
_Hum, que bom que você pode ter essa escolha._ comi uma uva.
_Eu nem sempre pude ter escolhas. Eu me esforcei muito para ter tudo o que eu queria. _ quase complementei que eu também me esforçava, mas não valia a pena interrompê-la._ Eu conquistei minha profissão, casa, marido...
_Você inclui ele entre seus objetos de conquista, parece estranho..._ comentei.
_Ora você não sabe que se deve conquistar as pessoas?_ farpou.
_..._ levantei os olhos e a mirei em cheio, sabia a quem ela se referia.
_Porque eu não costumo roubar quem não é meu.
_Eu não vou recomeçar essa guerra, estou fora._ levantei-me.
_Claro, agora tem vergonha do que fez.
_Eu não tenho vergonha!_ me virei irada.
_Ah! Não tem mesmo, porque se tivesse, não teria roubado o homem da minha vida._ ela levantou-se também.
_Mas não fui eu que matei o Carlos!_ levantei o tom de voz.
_Do que você está falando?_ ela enrubeceu de raiva.
_Você mexeu naquela moto, não foi? Você sabia que eu iria pegá-la, mas não contava que ele aparecesse na minha frente! E ele morreu por sua culpa!_desentalei aquilo.
_Não diga isso, sua..._ ela levantou a mão para me dar um tapa.
_Bate! Bate mesmo!_ cheguei mais perto._ Mas ele não vai voltar nunca mais, nem para mim, nem para você!
_Ele era o amor da minha vida!_ ela fez uma voz de vítima.
_Mas você não era da dele!_ lembrei-a.
_Você é uma qualquer que se ofereceu fácil para...
_..._ aguentei-me para não partir para cima dela, minhas mãos começaram a suar._Ele te disse que não te queria, que não te amava, Alice. Eu não tenho culpa se ele gostou de mim...
_Você se meteu no meio do caminho para roubar ele de mim! Se você não tivesse chegado...
_Acha que você conseguiria conquistá-lo, como conquistou seus bens materiais?!
_E você, que agora não tem nada? Só essa carinha linda, que te fez ganhar um monte de coisas fácil? Mas o que vem fácil, vai fácil..._ olhou-me de cima a baixo.
_Você o matou! Você matou o cara que mais amei! Você não suportou..._ as lágrimas vieram aos olhos._ Você nunca vai ser feliz, nunca!_ gritei com ela._... Não aguentou me ver feliz. Você sempre foi invejosa, botava todo mundo contra mim!
_Mentira!_berrou e logo a empregada apareceu na sala.
_Você é muito suja! Usa de todos os métodos para conseguir o que quer! Até essa barriga...
_..._ deu-me um tapa com tanta força no meu rosto, que estalou._ Cala a boca.
_Eu não te odeio._ falei entre os dentes._ Eu tenho pena de você.
_Eu não preciso de pena, minha vida é perfeita!
_É?_ cheguei mais perto, meu rosto ficou quente._ E como você dorme com a lembrança da imagem do Daniel morto, ensanguentado? Como? Ele não foi o amor da sua vida?_ ironizei._ Quem ama não mata.
_Eu amava ele.
_Mas não me amava, por isso queria me matar, era eu que devia estar naquela moto!_ solucei._ Eu devia estar morta.
_É, era você que devia estar morta!_gritou._ você merece morrer!_ me pegou pelo pescoço e eu cai em cima do sofá, não queria tocá-la por causa da barriga.
_Mas o que está acontecendo aqui?_ Ricardo desceu as escadas correndo.
_Eu odeio você, garota!_ apertou meu pescoço com toda força e eu fiquei sem ar.
_Alice pára._ ele tentou contê-la, puxou-a para longe.
_... respirei com força, estava sem ar. Tossi e corri para o meu quarto. Bati a porta. Joguei-me na cama e me abracei ao travesseiro.
_Daniela abre essa porta!_ Ricardo bateu várias vezes até que percebeu que estava aberta e entrou..
_Me deixa sozinha.
_A Alice já está mais calma, mas não quis me contar o que houve. De ter sido sério, porque eu vi...
_Ricardo, me deixa sozinha..._ levantei-me e fui até a janela.
_Não, eu tenho o direito de saber..._ puxou-me pelo braço até que viu meu rosto e pescoço marcados._ Ai meu Deus...Sua boca está sangrando.
_Sai daqui!_ fechei os olhos, tentando manter a calma.
_Quem era o homem de quem você estava falando, Daniela?_ perguntou-me, como se toda sua vida dependesse daquela resposta. _Quem era?
_Não, hoje eu não estou com vontade._ respondeu esnobe, sem olhar-me.
_Hum, que bom que você pode ter essa escolha._ comi uma uva.
_Eu nem sempre pude ter escolhas. Eu me esforcei muito para ter tudo o que eu queria. _ quase complementei que eu também me esforçava, mas não valia a pena interrompê-la._ Eu conquistei minha profissão, casa, marido...
_Você inclui ele entre seus objetos de conquista, parece estranho..._ comentei.
_Ora você não sabe que se deve conquistar as pessoas?_ farpou.
_..._ levantei os olhos e a mirei em cheio, sabia a quem ela se referia.
_Porque eu não costumo roubar quem não é meu.
_Eu não vou recomeçar essa guerra, estou fora._ levantei-me.
_Claro, agora tem vergonha do que fez.
_Eu não tenho vergonha!_ me virei irada.
_Ah! Não tem mesmo, porque se tivesse, não teria roubado o homem da minha vida._ ela levantou-se também.
_Mas não fui eu que matei o Carlos!_ levantei o tom de voz.
_Do que você está falando?_ ela enrubeceu de raiva.
_Você mexeu naquela moto, não foi? Você sabia que eu iria pegá-la, mas não contava que ele aparecesse na minha frente! E ele morreu por sua culpa!_desentalei aquilo.
_Não diga isso, sua..._ ela levantou a mão para me dar um tapa.
_Bate! Bate mesmo!_ cheguei mais perto._ Mas ele não vai voltar nunca mais, nem para mim, nem para você!
_Ele era o amor da minha vida!_ ela fez uma voz de vítima.
_Mas você não era da dele!_ lembrei-a.
_Você é uma qualquer que se ofereceu fácil para...
_..._ aguentei-me para não partir para cima dela, minhas mãos começaram a suar._Ele te disse que não te queria, que não te amava, Alice. Eu não tenho culpa se ele gostou de mim...
_Você se meteu no meio do caminho para roubar ele de mim! Se você não tivesse chegado...
_Acha que você conseguiria conquistá-lo, como conquistou seus bens materiais?!
_E você, que agora não tem nada? Só essa carinha linda, que te fez ganhar um monte de coisas fácil? Mas o que vem fácil, vai fácil..._ olhou-me de cima a baixo.
_Você o matou! Você matou o cara que mais amei! Você não suportou..._ as lágrimas vieram aos olhos._ Você nunca vai ser feliz, nunca!_ gritei com ela._... Não aguentou me ver feliz. Você sempre foi invejosa, botava todo mundo contra mim!
_Mentira!_berrou e logo a empregada apareceu na sala.
_Você é muito suja! Usa de todos os métodos para conseguir o que quer! Até essa barriga...
_..._ deu-me um tapa com tanta força no meu rosto, que estalou._ Cala a boca.
_Eu não te odeio._ falei entre os dentes._ Eu tenho pena de você.
_Eu não preciso de pena, minha vida é perfeita!
_É?_ cheguei mais perto, meu rosto ficou quente._ E como você dorme com a lembrança da imagem do Daniel morto, ensanguentado? Como? Ele não foi o amor da sua vida?_ ironizei._ Quem ama não mata.
_Eu amava ele.
_Mas não me amava, por isso queria me matar, era eu que devia estar naquela moto!_ solucei._ Eu devia estar morta.
_É, era você que devia estar morta!_gritou._ você merece morrer!_ me pegou pelo pescoço e eu cai em cima do sofá, não queria tocá-la por causa da barriga.
_Mas o que está acontecendo aqui?_ Ricardo desceu as escadas correndo.
_Eu odeio você, garota!_ apertou meu pescoço com toda força e eu fiquei sem ar.
_Alice pára._ ele tentou contê-la, puxou-a para longe.
_... respirei com força, estava sem ar. Tossi e corri para o meu quarto. Bati a porta. Joguei-me na cama e me abracei ao travesseiro.
_Daniela abre essa porta!_ Ricardo bateu várias vezes até que percebeu que estava aberta e entrou..
_Me deixa sozinha.
_A Alice já está mais calma, mas não quis me contar o que houve. De ter sido sério, porque eu vi...
_Ricardo, me deixa sozinha..._ levantei-me e fui até a janela.
_Não, eu tenho o direito de saber..._ puxou-me pelo braço até que viu meu rosto e pescoço marcados._ Ai meu Deus...Sua boca está sangrando.
_Sai daqui!_ fechei os olhos, tentando manter a calma.
_Quem era o homem de quem você estava falando, Daniela?_ perguntou-me, como se toda sua vida dependesse daquela resposta. _Quem era?
18.8.06
Capítulo 9: (Ricardo)
A pergunta de Daniela ainda ressoava em minha cabeça. "Você ama sua mulher?". Olhei-a esperando minha resposta. Respirei fundo, comecei a arrumar os papéis em cima da mesa:
_Eu tenho uma visão diferente. Acho que podemos sim amar várias pessoas. Senão, seríamos todos infelizes!
_Mas isso não responde a minha pergunta._ ela deu um leve sorriso de dona da situação.
_Você acha que alguém pode conviver como uma pessoa se não a amasse? _devolvi com outra pergunta.
_Lógico. Você moraria perfeitamente com um amigo e nem por isso precisaria amá-lo... _argumentou.
_Eu amo sim sua irmã. É essa resposta que quer ouvir?
_Não, eu não preciso ouvir nada. Isso é uma coisa para você pensar.
_Para que eu preciso pensar, Daniela? Eu vivo bem com ela, nós vamos ter um filho!
_ Ricardo, tudo bem, não precisa se alterar. Foi você quem puxou esse assunto, aliás, não quero mais que conversemos sobre isso._ levantou-se para se retirar.
_Não, não, tudo bem. Quero que falemos de tudo, não pense que eu...
_Eu não penso nada..._ riu irônica._ Eu sou a pessoa mais desprovida de preconceitos...
Subi para meu quarto incomodado com todas aquelas inquisições. Abracei-me a Alice e afastei aquela conversa da minha cabeça. Eu era feliz e pronto, não precisava de mais nada, nem ninguém!
Nosso filho era prova de que o amor existia! Para que mais?
_Eu tenho uma visão diferente. Acho que podemos sim amar várias pessoas. Senão, seríamos todos infelizes!
_Mas isso não responde a minha pergunta._ ela deu um leve sorriso de dona da situação.
_Você acha que alguém pode conviver como uma pessoa se não a amasse? _devolvi com outra pergunta.
_Lógico. Você moraria perfeitamente com um amigo e nem por isso precisaria amá-lo... _argumentou.
_Eu amo sim sua irmã. É essa resposta que quer ouvir?
_Não, eu não preciso ouvir nada. Isso é uma coisa para você pensar.
_Para que eu preciso pensar, Daniela? Eu vivo bem com ela, nós vamos ter um filho!
_ Ricardo, tudo bem, não precisa se alterar. Foi você quem puxou esse assunto, aliás, não quero mais que conversemos sobre isso._ levantou-se para se retirar.
_Não, não, tudo bem. Quero que falemos de tudo, não pense que eu...
_Eu não penso nada..._ riu irônica._ Eu sou a pessoa mais desprovida de preconceitos...
Subi para meu quarto incomodado com todas aquelas inquisições. Abracei-me a Alice e afastei aquela conversa da minha cabeça. Eu era feliz e pronto, não precisava de mais nada, nem ninguém!
Nosso filho era prova de que o amor existia! Para que mais?
16.8.06
Cap 8: (Daniela)
_Pra você._ Fátima passou-me o telefone sem fio. Eu estava meio sonolenta no sofá, após o almoço._ É o senhor Ricardo. Parece que é urgente.
_Obrigada._ peguei o aparelho._ Alô, Ricardo?
_Oi!_ a voz dele estava risonha._Tenho uma ótima notícia!_anunciou._Meu amigo quer te entrevistar._ explicou antes que eu tivesse tempo de perguntar o que era.
_Caramba! Fala que quando ele quiser.
_Ele quer agora.
_Agora?_ levantei-me do sofá e senti um frio na barriga.
_Pede um cartão para Fátima, ela tem o endereço. Vem já!_ pediu, um pouco divertido com o modo como podia controlar a situação. Senti-me uma marionete, mas era por uma boa causa.
_Certo. Estou indo._ desliguei.
Após me dar o endereço, a Fátima perguntou se eu iria com aquele vestido branco. Eu disse que sim e ela balançou a cabeça para os lados.
_Vou passar uma roupa da sua irmã. Tem que estar bem apresentável.
_Mas e se ela descobrir?_ perguntei.
_Vai nada!Vem comigo..._ me puxou pela mão.
Realmente eu me senti mais segura dentro da calça social e do terninho. Pena que andar de salto alto na rua é um calvário para qualquer mulher.
Olhei para o prédio alto. Respirei fundo e entrei. Ricardo me recebeu na sua sala e mediou a conversa com o tal amigo. Era um senhor até simpático, mas que me pareceu muito exigente, logo que decediu por fazer uma semana de experiência.
_Essa é minha agenda, aquele meu computador. Eu quero esses relatórios aqui revisados e traduzidos para inglês..._ foi empilhando papéis sobre a minha mesa, estava claramente tentando me incitar ao cansaço.
Eu levei horas fazendo tudo aquilo.
_Você quer uma carona para voltar para casa?_ Ricardo apareceu na sala.
_Quero sim._ Aceitei e recolhi todos os papéis.
_Vai levar isso?_ fez uma careta.
_Tenho que terminar...
_Não se deve levar trabalho para casa, já dizia os defensores de uma vida saudável.
_Eu preciso desse emprego!_ pisquei o olho e segui atrás dele, rumo ao elevador.
_Eu estou preocupada com uma coisa... Eu sei que pode achar ridículo..._ falei quando nos aproximei de casa.
_Como eu não pedi essa roupa emprestada para Alice, ela pode achar mal...
_Não! Que isso. Ela é um amor. Eu mesmo falarei com ela.
Ricardo passou até do prometido, perguntou se ela não teria alguns terninhos para me dar. Afinal, seu armário era abarrotado.
_Claro!_ Alice ficou feito criança mostrando seu brinquedo novo. Jogou várias roupas em cima da cama e uma a uma foi dizendo que não fazia mais seu gosto, que já se cansara..._ Pode ficar com tudo isso aí.
Eu peguei todas, agradeci e fui para o quarto de empregada. Olhei os papéis e me bateu um cansaço. Mas mentalizei um mantra de que eu tinha que conseguir aquilo.
_Quando você acha que as forças acabaram, sempre tem um restante final, Daniela!_ falei para mim mesma.
_Ainda aqui?_ Ricardo veio buscar água, só havia uma luz ligada na cozinha, toda a casa estava escura._Falta muito?_ perguntou-me.
_Acabei._ respondi._ estou aqui pensando na vida...
_Ou em alguém?
_Alguém?_franzi a testa.
_É, você falou que deixou alguém, quando veio para cá.
_Ah!_lembrei-me._ Agora não estava pensando nele.
_Um grande amor?_ sentou-se à mesa e folheou os relatórios.
_Amor?_ ri alto._ Amor só tem um.
_Bobagem! Então se o amor morrer você ficará fadada a infeliciadade?
_Não. Eu não disse isso. Só há um grande amor. Os outros a gente aprende a amar.
_Seu amor já passou?_perguntou e me surpreendi com sua curiosidade.
_Já, já passou. Já amei._ responder aquilo me trouxe de volta aquela dor..._ E você?
_Eu? Que pergunta! Eu e sua irmã...
_Ela é seu amor?_ perguntei.
_Obrigada._ peguei o aparelho._ Alô, Ricardo?
_Oi!_ a voz dele estava risonha._Tenho uma ótima notícia!_anunciou._Meu amigo quer te entrevistar._ explicou antes que eu tivesse tempo de perguntar o que era.
_Caramba! Fala que quando ele quiser.
_Ele quer agora.
_Agora?_ levantei-me do sofá e senti um frio na barriga.
_Pede um cartão para Fátima, ela tem o endereço. Vem já!_ pediu, um pouco divertido com o modo como podia controlar a situação. Senti-me uma marionete, mas era por uma boa causa.
_Certo. Estou indo._ desliguei.
Após me dar o endereço, a Fátima perguntou se eu iria com aquele vestido branco. Eu disse que sim e ela balançou a cabeça para os lados.
_Vou passar uma roupa da sua irmã. Tem que estar bem apresentável.
_Mas e se ela descobrir?_ perguntei.
_Vai nada!Vem comigo..._ me puxou pela mão.
Realmente eu me senti mais segura dentro da calça social e do terninho. Pena que andar de salto alto na rua é um calvário para qualquer mulher.
Olhei para o prédio alto. Respirei fundo e entrei. Ricardo me recebeu na sua sala e mediou a conversa com o tal amigo. Era um senhor até simpático, mas que me pareceu muito exigente, logo que decediu por fazer uma semana de experiência.
_Essa é minha agenda, aquele meu computador. Eu quero esses relatórios aqui revisados e traduzidos para inglês..._ foi empilhando papéis sobre a minha mesa, estava claramente tentando me incitar ao cansaço.
Eu levei horas fazendo tudo aquilo.
_Você quer uma carona para voltar para casa?_ Ricardo apareceu na sala.
_Quero sim._ Aceitei e recolhi todos os papéis.
_Vai levar isso?_ fez uma careta.
_Tenho que terminar...
_Não se deve levar trabalho para casa, já dizia os defensores de uma vida saudável.
_Eu preciso desse emprego!_ pisquei o olho e segui atrás dele, rumo ao elevador.
_Eu estou preocupada com uma coisa... Eu sei que pode achar ridículo..._ falei quando nos aproximei de casa.
_Como eu não pedi essa roupa emprestada para Alice, ela pode achar mal...
_Não! Que isso. Ela é um amor. Eu mesmo falarei com ela.
Ricardo passou até do prometido, perguntou se ela não teria alguns terninhos para me dar. Afinal, seu armário era abarrotado.
_Claro!_ Alice ficou feito criança mostrando seu brinquedo novo. Jogou várias roupas em cima da cama e uma a uma foi dizendo que não fazia mais seu gosto, que já se cansara..._ Pode ficar com tudo isso aí.
Eu peguei todas, agradeci e fui para o quarto de empregada. Olhei os papéis e me bateu um cansaço. Mas mentalizei um mantra de que eu tinha que conseguir aquilo.
_Quando você acha que as forças acabaram, sempre tem um restante final, Daniela!_ falei para mim mesma.
_Ainda aqui?_ Ricardo veio buscar água, só havia uma luz ligada na cozinha, toda a casa estava escura._Falta muito?_ perguntou-me.
_Acabei._ respondi._ estou aqui pensando na vida...
_Ou em alguém?
_Alguém?_franzi a testa.
_É, você falou que deixou alguém, quando veio para cá.
_Ah!_lembrei-me._ Agora não estava pensando nele.
_Um grande amor?_ sentou-se à mesa e folheou os relatórios.
_Amor?_ ri alto._ Amor só tem um.
_Bobagem! Então se o amor morrer você ficará fadada a infeliciadade?
_Não. Eu não disse isso. Só há um grande amor. Os outros a gente aprende a amar.
_Seu amor já passou?_perguntou e me surpreendi com sua curiosidade.
_Já, já passou. Já amei._ responder aquilo me trouxe de volta aquela dor..._ E você?
_Eu? Que pergunta! Eu e sua irmã...
_Ela é seu amor?_ perguntei.
14.8.06
Capítulo 7: (Ricardo)
Elas pareciam um pouco alteradas no quarto, pairava um clima tenso no ar, nos olhos, nas mãos que manuseavam umas fotos sobre a cama. Instigado pela curiosidade, peguei uma das fotografias, antes que Daniela recolhesse todas.
_É você?_ eu franzi a testa, realmente espantado.
_Ela era diferente não?_ Alice carregou no "diferente".
_Posso ver as outras?_ pedi, completamente impressionado.
_..._ Daniela olhou por uns instantes as fotos, depois para Alice e finalmente deu para mim de agrado o que antes tentara esconder e simplesmente saiu do quarto, à passos largos.
_Não pode ser ela..._ comentei, vinte minutos depois, quando Alice saiu do banho e sentou-se na cama. Estava entretida passando creme na barriga.
_Ainda está vendo isso?_Alice riu._ Ela ficou assim depois que começou a namorar um cara. Toda gótica.
_... E o que a fez mudar radicalmente, por que ela me parece normal.
_Ele morreu em um acidente de moto.
_Hum, que horrível.
_Estou morta. Preciso descansar._ Ela deitou e fechou os olhos.
_Eu vou dar uma olhada na internet. Deixei o computador lá embaixo._ dei um beijo no seu rosto e desci.
A porta da sala estava aberta e o vento balançava as persianas, produzindo um som um tanto sinistro.
Daniela estava sentada em um banco do jardim, olhando o nada. Fungou o nariz, estaria chorando? Parecia uma estatua de sabão. Branca, magra, esguia. Não consegui imaginá-la dentro daquelas roupas pretas, cheia de maquiagem carregada e correntes.
_Ficou chateada com sua irmã?_ perguntei, me sentando ao seu lado.
_..._ ela deu de ombros._... estava aqui lembrando meus amigos, lembrando de alguém especial que deixei lá...
_Hummm Sei..._ fiz um ar de segundas interpretações.
_Já vou dormir. Boa noite._ ela levantou-se e entrou de modo tão subito. Não tinha planejado nenhum papo longo, mas também não entendia o que a mais estava por trás daquelas fotos. Essa explicação era a chave para os pensamentos solitários dela, antes que eu chegara.
Pensei em perguntar a Alice, mas temia por uma versão parcial dos fatos. Mas a verdade havia de começar por um ponto de vista.
_Parece que ele gostou de você..._ comentei, vendo meu cachorro Frog brincando no tapete da sala com Daniela.
_Os animais sentem... Não são só os seres humanos._ Fátima, minha empregada fez mais um de seus comentários profundos, enquanto colocava a mesa._ Essa menina é muito especial.
_O que vê dessa vez?_ ri, seguindo-a até a cozinha, adorava seu jeito sobrenatural.
_Você nunca acredita!_ ela pegou o suco da geladeira.
_Eu sou uma pessoa crítica._ consertei.
_Ela não veio para essa casa à toa. _ deixou um vazio, depois da sua frase. E eu arregalei os olhos e franzi a testa com um ar reticente._... Daniela tem algo muito bom com ela, que entrou aqui. Tudo em torno dela é atraído por ela, como um campo magnético.
_Ah! Tem pessoas que são carismáticas mesmo._ fiz pouco caso.
_Cuidado._ ela, novamente enigmática.
_Com o quê?
_Cuidado com o seu coração. Porque você está a muito tempo buscando uma coisa, pedindo mentalmente por ela. E quando isso que queria, chega, pode abalar tudo.
_ Do que está falando...?
_É melhor deixar para lá._ ela voltou para sala, carregando seu suco e eu a acompanhei.
Daniela correu pela sala e o Frog atrás, fazendo festa. Ela ria alto e todo o lugar se enchia de alegria, de felicidade. Cuidado. Essa palavra me fez sentir medo. Medo de mim mesmo.
_Fatinha._ chamei-a, antes que retornasse a cozinha.
_Pois não, seu Ricardo.
_O que eu estou procurando?_ perguntei, sem tirar os olhos daqueles dois brincando de pique-pega.
_... você deve se conhecer melhor do que eu, senhor._ ela deu uma risada longa, de uma bruxa boa.
_É você?_ eu franzi a testa, realmente espantado.
_Ela era diferente não?_ Alice carregou no "diferente".
_Posso ver as outras?_ pedi, completamente impressionado.
_..._ Daniela olhou por uns instantes as fotos, depois para Alice e finalmente deu para mim de agrado o que antes tentara esconder e simplesmente saiu do quarto, à passos largos.
_Não pode ser ela..._ comentei, vinte minutos depois, quando Alice saiu do banho e sentou-se na cama. Estava entretida passando creme na barriga.
_Ainda está vendo isso?_Alice riu._ Ela ficou assim depois que começou a namorar um cara. Toda gótica.
_... E o que a fez mudar radicalmente, por que ela me parece normal.
_Ele morreu em um acidente de moto.
_Hum, que horrível.
_Estou morta. Preciso descansar._ Ela deitou e fechou os olhos.
_Eu vou dar uma olhada na internet. Deixei o computador lá embaixo._ dei um beijo no seu rosto e desci.
A porta da sala estava aberta e o vento balançava as persianas, produzindo um som um tanto sinistro.
Daniela estava sentada em um banco do jardim, olhando o nada. Fungou o nariz, estaria chorando? Parecia uma estatua de sabão. Branca, magra, esguia. Não consegui imaginá-la dentro daquelas roupas pretas, cheia de maquiagem carregada e correntes.
_Ficou chateada com sua irmã?_ perguntei, me sentando ao seu lado.
_..._ ela deu de ombros._... estava aqui lembrando meus amigos, lembrando de alguém especial que deixei lá...
_Hummm Sei..._ fiz um ar de segundas interpretações.
_Já vou dormir. Boa noite._ ela levantou-se e entrou de modo tão subito. Não tinha planejado nenhum papo longo, mas também não entendia o que a mais estava por trás daquelas fotos. Essa explicação era a chave para os pensamentos solitários dela, antes que eu chegara.
Pensei em perguntar a Alice, mas temia por uma versão parcial dos fatos. Mas a verdade havia de começar por um ponto de vista.
_Parece que ele gostou de você..._ comentei, vendo meu cachorro Frog brincando no tapete da sala com Daniela.
_Os animais sentem... Não são só os seres humanos._ Fátima, minha empregada fez mais um de seus comentários profundos, enquanto colocava a mesa._ Essa menina é muito especial.
_O que vê dessa vez?_ ri, seguindo-a até a cozinha, adorava seu jeito sobrenatural.
_Você nunca acredita!_ ela pegou o suco da geladeira.
_Eu sou uma pessoa crítica._ consertei.
_Ela não veio para essa casa à toa. _ deixou um vazio, depois da sua frase. E eu arregalei os olhos e franzi a testa com um ar reticente._... Daniela tem algo muito bom com ela, que entrou aqui. Tudo em torno dela é atraído por ela, como um campo magnético.
_Ah! Tem pessoas que são carismáticas mesmo._ fiz pouco caso.
_Cuidado._ ela, novamente enigmática.
_Com o quê?
_Cuidado com o seu coração. Porque você está a muito tempo buscando uma coisa, pedindo mentalmente por ela. E quando isso que queria, chega, pode abalar tudo.
_ Do que está falando...?
_É melhor deixar para lá._ ela voltou para sala, carregando seu suco e eu a acompanhei.
Daniela correu pela sala e o Frog atrás, fazendo festa. Ela ria alto e todo o lugar se enchia de alegria, de felicidade. Cuidado. Essa palavra me fez sentir medo. Medo de mim mesmo.
_Fatinha._ chamei-a, antes que retornasse a cozinha.
_Pois não, seu Ricardo.
_O que eu estou procurando?_ perguntei, sem tirar os olhos daqueles dois brincando de pique-pega.
_... você deve se conhecer melhor do que eu, senhor._ ela deu uma risada longa, de uma bruxa boa.
13.8.06
Capítulo 6: (Daniela)
Quando Ricardo sentou de novo no sofá, não me contive:
_Desculpe, passei dos limites, não deveria ter...
_Esquece!_ ele cortou o assunto rispidamente, levantou-se e me deu as costas, para poder ligar o aparelho de DVD, introduziu o filme e voltou a se jogar no sofá.
_Não vai ter nenhuma pipoquinha?_ perguntei.
Ele olhou-me, parou o filme com o controle remoto e gritou a empregada, que não veio.
_Ela deve ter saído para fazer compras. _ supôs.
_E daí? Você deixa de fazer pipoca só porque sua empregada não está?_ eu percebi que estava sendo seca demais._ Quero dizer, eu posso fazer, se você me mostrar onde estão as coisas para fazer...
_..._ ele pensou por uns minutos e depois levantou-se, um pouco indiferente. Caminhamos para a cozinha e ele olhou os armários com dúvida:
_Não sei onde fica as coisas... Temos que procurar..._ riu constrangido e agradeci por ele já está esquecendo a pequena intriga do almoço.
_Ah! A manteiga deve estar na geladeira. Procura pipoca nessas portas aí._ apontei.
_Olha, acho que não tem não..._ chegou a essa conclusão depois de vasculhar tudo.
_Mas tem uma coisa aqui..._ sorri e peguei a lata de leite moça._ Vamos fazer brigadeiro.
_Nossa, isso que eu chamo de mudança: de pipoca para doce...
_Ah! Qual foi a última vez que comeu isso?
_Hum... Nossa faz tempo que não vou a festa de criança.
_Tá brincando? Alice nunca fez para você?_ perguntei surpresa e procurei o abridor em uma gaveta._ Ela não tem desejo não?
_Ah! Tem, mas se controla. "Para ficar divina"_imitou a voz dela com um tom afetado e nós caímos na risada.
_Isso não vai dar uma baita dor de barriga não?_ Ricardo me perguntou, vinte minutos depois, com uma colher do doce na boca, enquanto nos acomodávamos no sofá.
_Será por um bom motivo!_ ri e enfiei a colher na panela.
_Pega lá água para gente..._ aquilo saiu naturalmente._ Desculpe, deixa que eu pego... É que estava acostumada a falar assim com meus amigos...
_Não, fica aí!_ ele me puxou pelo braço e me fez sentar outra vez._ eu posso pegar!_ Ricardo encarou aquilo como uma questão de honra.
O filme eu já vira, Codigo Da vinci.
_Vendo pela segunda vez, deu para observar alguns erros de continuísmo. Eu já li umas matérias legais sobre o filme._É? Tipo o quê?_ Ricardo fez um ar curioso.
Estiquei a mão e tirei um pingo de chocolate que estava no canto da sua boca.
_Ah! Por exemplo:n o Louvre, Sophie põe coloca GPS em um sabão e o joga pela janela, mas nos banheiros do Louvre não existem janelas.
_Jura?
_Tem outra boa: no avião, quando a Sophie tira a fita da boca do Silas, pode-se ver nitidamente a boca e o nariz dele limpos, então a câmera corta para Sophie e quando volta para Silas ele está com o nariz e a boca sangrando. Se fosse depois de levar uns tapas da Sophie até seria aceitável, mas foi antes!
_Caramba!_ Os olhos de Ricardo brilham, como se eu fosse uma feiticeira revelando o elo perdido:
_Logo no começo do filme,_continuei, já que ele se interessara pelas curiosidades_ No Louvre, depois de Robert Langdon ter pego todas as pistas deixadas pelo cadáver, ele pergunta para o agente Bezu Fache se no local havia banheiro. O agente apenas responde que sim e, sozinho, sem ajuda, Langdon vai para o banheiro. Ora, se ele sabia o caminho para o banheiro, porque perguntou se existia banheiro?
_É mesmo_ ele riu e bateu palmas.
_Quase no fim do filme, a câmera dá um close no rosto de Sophie, e aparece uma mancha no pescoço dela. A câmera muda, e depois quando volta a focar seu rosto, não há mais a mancha. Ocorre mais uma mudança de câmera, e quando retorna ao rosto dela, a mancha apareceu novamente.
_Ah! Você saca tudo de cinema, hen?
_... que nada!
_Ela deve entender só de cinema mesmo!_ Uma terceira voz, vinda da porta me fez virar o rosto para trás.Odiava o modo como Alice andava com pés de pelica e ainda ficava ouvindo a conversa dos outros. Pegou a capa do filme e deu uma olhada no verso:
_Um... Filme "pipoca" é? Pensei que você só gostasse de coisa cult!_ ironizou me olhando.
_..._engoli aquilo.
_Ah! Eu tenho umas coisinhas lá no quarto que são suas. Vem comigo.
Levantei-me e a acompanhei. Antes lancei um olhar para Ricardo, para ver se descobria do que ela falava.
_Eu não joguei fora. Vendi a casa dos nossos pais, mas achei que ia querer._ ela virou uma bolsa e deixou várias fotos caírem em cima da cama. Ricardo que acabava de entrar se aproximou. Tentei recolher tudo, mas ele acabou vendo e pegou uma...
_Desculpe, passei dos limites, não deveria ter...
_Esquece!_ ele cortou o assunto rispidamente, levantou-se e me deu as costas, para poder ligar o aparelho de DVD, introduziu o filme e voltou a se jogar no sofá.
_Não vai ter nenhuma pipoquinha?_ perguntei.
Ele olhou-me, parou o filme com o controle remoto e gritou a empregada, que não veio.
_Ela deve ter saído para fazer compras. _ supôs.
_E daí? Você deixa de fazer pipoca só porque sua empregada não está?_ eu percebi que estava sendo seca demais._ Quero dizer, eu posso fazer, se você me mostrar onde estão as coisas para fazer...
_..._ ele pensou por uns minutos e depois levantou-se, um pouco indiferente. Caminhamos para a cozinha e ele olhou os armários com dúvida:
_Não sei onde fica as coisas... Temos que procurar..._ riu constrangido e agradeci por ele já está esquecendo a pequena intriga do almoço.
_Ah! A manteiga deve estar na geladeira. Procura pipoca nessas portas aí._ apontei.
_Olha, acho que não tem não..._ chegou a essa conclusão depois de vasculhar tudo.
_Mas tem uma coisa aqui..._ sorri e peguei a lata de leite moça._ Vamos fazer brigadeiro.
_Nossa, isso que eu chamo de mudança: de pipoca para doce...
_Ah! Qual foi a última vez que comeu isso?
_Hum... Nossa faz tempo que não vou a festa de criança.
_Tá brincando? Alice nunca fez para você?_ perguntei surpresa e procurei o abridor em uma gaveta._ Ela não tem desejo não?
_Ah! Tem, mas se controla. "Para ficar divina"_imitou a voz dela com um tom afetado e nós caímos na risada.
_Isso não vai dar uma baita dor de barriga não?_ Ricardo me perguntou, vinte minutos depois, com uma colher do doce na boca, enquanto nos acomodávamos no sofá.
_Será por um bom motivo!_ ri e enfiei a colher na panela.
_Pega lá água para gente..._ aquilo saiu naturalmente._ Desculpe, deixa que eu pego... É que estava acostumada a falar assim com meus amigos...
_Não, fica aí!_ ele me puxou pelo braço e me fez sentar outra vez._ eu posso pegar!_ Ricardo encarou aquilo como uma questão de honra.
O filme eu já vira, Codigo Da vinci.
_Vendo pela segunda vez, deu para observar alguns erros de continuísmo. Eu já li umas matérias legais sobre o filme._É? Tipo o quê?_ Ricardo fez um ar curioso.
Estiquei a mão e tirei um pingo de chocolate que estava no canto da sua boca.
_Ah! Por exemplo:n o Louvre, Sophie põe coloca GPS em um sabão e o joga pela janela, mas nos banheiros do Louvre não existem janelas.
_Jura?
_Tem outra boa: no avião, quando a Sophie tira a fita da boca do Silas, pode-se ver nitidamente a boca e o nariz dele limpos, então a câmera corta para Sophie e quando volta para Silas ele está com o nariz e a boca sangrando. Se fosse depois de levar uns tapas da Sophie até seria aceitável, mas foi antes!
_Caramba!_ Os olhos de Ricardo brilham, como se eu fosse uma feiticeira revelando o elo perdido:
_Logo no começo do filme,_continuei, já que ele se interessara pelas curiosidades_ No Louvre, depois de Robert Langdon ter pego todas as pistas deixadas pelo cadáver, ele pergunta para o agente Bezu Fache se no local havia banheiro. O agente apenas responde que sim e, sozinho, sem ajuda, Langdon vai para o banheiro. Ora, se ele sabia o caminho para o banheiro, porque perguntou se existia banheiro?
_É mesmo_ ele riu e bateu palmas.
_Quase no fim do filme, a câmera dá um close no rosto de Sophie, e aparece uma mancha no pescoço dela. A câmera muda, e depois quando volta a focar seu rosto, não há mais a mancha. Ocorre mais uma mudança de câmera, e quando retorna ao rosto dela, a mancha apareceu novamente.
_Ah! Você saca tudo de cinema, hen?
_... que nada!
_Ela deve entender só de cinema mesmo!_ Uma terceira voz, vinda da porta me fez virar o rosto para trás.Odiava o modo como Alice andava com pés de pelica e ainda ficava ouvindo a conversa dos outros. Pegou a capa do filme e deu uma olhada no verso:
_Um... Filme "pipoca" é? Pensei que você só gostasse de coisa cult!_ ironizou me olhando.
_..._engoli aquilo.
_Ah! Eu tenho umas coisinhas lá no quarto que são suas. Vem comigo.
Levantei-me e a acompanhei. Antes lancei um olhar para Ricardo, para ver se descobria do que ela falava.
_Eu não joguei fora. Vendi a casa dos nossos pais, mas achei que ia querer._ ela virou uma bolsa e deixou várias fotos caírem em cima da cama. Ricardo que acabava de entrar se aproximou. Tentei recolher tudo, mas ele acabou vendo e pegou uma...
12.8.06
Capítulo 5: (Ricardo)
Daniela parecia tão certa e segura do que faria, enquanto me contava que pretendia estudar para prestar vestibular para psicologia no final do ano, que eu entrava em conflito com a imagem que via e a aquela que eu construira em minha cabeça, com base nas descrições de Alice.
_ E é isso... Eu quero arrumar um emprego e trabalhar enquanto isso. Fazer qualquer coisa mesmo, para ganhar dinheiro.
_Bom, eu trabalho com um empresário que estava precisando de uma secretária que falasse muito bem inglês...
_ Eu ia adorar!_ Seus olhos se acenderam, vivos e esperançosos._ Você poderia me indicar para ele?
_Falarei com ele!_ garanti e naquele momento me senti feliz por poder trazer tanta alegria a ela.
Ficou um silêncio no ar, mas não era pertubador. Estranho isso. Nem nos conhecêmos direito... Ela continuou olhando a capa do filme. Um vento bom entrou pela porta da sala e fio de cabelo ficou roçando o rosto dela de um lado para o outro. E cada vez que o fio ia e voltava, meus olhos seguiam o movimento. Até que num ataque de agonia, estendi os dedos e pus o fio atrás da orelha. O que fez ela virar-se e fixar em mim uma visão de amedrontamento, que achei que a assustara.
_Vamos almoçar?_ pulou do sofá e me senti um estúpido, será que ela interpretara mal? Mas só foi um leve toque no cabelo!
_Claro._ levantei-me também, mas inseguro, sem olhá-la. _ Que temos hoje, Fatinha?
_Legumes, estrogonofe e saladas._ ela respondeu arrumando os pratos na mesa.
_Hum... Anh... A Alice vem almoçar hoje?
_Não, ela ligou e disse que só chega para o jantar._ ela respondeu e se virou para ir para cozinha._ Ah! Então, faz batata frita. Mas faz muita, frita também um bife bem grande e mal passado, com aquele sangue escorrendo...
Ouvi uma risada atrás de mim.
_Pode ser dois bifes?_ Daniela enfiou as mãos no bolso e encolheu os ombros._ Posso?_ pediu-me.
Fatinha olhando-me da porta esperou meu aval:
_Dois bem grandes, pode levar essas saladas daqui. E traz refrigerante também. Ah! Muito sorvete na sobremesa.
_Claro, doutor.
_Quando gato sai os ratos fazem a festa!_ Daniela riu alto e parecia se divertir como nunca. Não era esse semblante que eu vira ontem à mesa de jantar.
_Desculpe. _ ela controlou-se, até que ficou séria novamente, ficou constrangida por eu não ter rido também, mas era por eu estar absorvido por essas observações que eu não conseguia parar de fazer, por algum motivo, simplesmente dera para analisá-la desde que chegara._ Foi só uma brincadeira... Sei que ela é sua mulher...
_Tudo bem. Eu sempre estou esperando para a próxima festa._ Sentei-me, também me dando ao luxo de ficar com aquela blusa suada, sem ter a obrigação de tomar banho antes, com os cabelos desgrenhados.
_Você conviveu muito tempo com a sua mãe?_ ela sentou-se, com um leve sorriso de quem sabe de algo mais nos lábios._Não..._ olhei fixamente o copo por alguns segundos._... Na verdade, não convivi com ela. Meu pai se separou dela eu tinha 9 anos, depois vivi com ele e os empregados. Ele não se casou de novo.
_Então, você encontrou tudo que queria na minha irmã. Sorte a sua..._ ela suspirou. Aquilo fora uma ironia?_Ãnh?_ franzi a testa.
_Deixa pra lá..._ ela revirou os olhos e jogou a cabeça para trás, apoiando a parte de trás do pescoço no encosto do assento e ficou contemplando o teto.
_Não! Agora diga...
_Não quero estragar o almoço...
_Diz!_ agora eu estava irritado.
_..._ Ela ergueu a cabeça e me olhou fixamente. Estudando o melhor momento para o golpe:_ Você achou a sua mãe._... Isso está parecendo Édipo Rei..._ ri._ Daquela história grega, que casa com a mãe...
_Eu falei que não queria falar..._ Ela voltou a contemplar o nada no teto branco.
_Talvez eu queira me sentir seguro...
_..._ ela riu e passei o papel de ridículo._... Você quer pela primeira vez ser mandado, ter uma figura feminina te dizendo o que comer, o que vestir, como viver. Mas depois de seis meses, o que me diz?
_..._ engoli em seco. Salvo pelo gongo: Fátima chegara com os bifes._... É diferente da vida que eu tinha...
_Se pudesse escolher, gostaria de ter a vida que tinha antes?
_Eu posso escolher!_ lembrei-a.
_Será? Com ela carregando um filho seu? Ela carrega a proibição de você deixá-la...
Foi a minha vez de parar de cortar o bife e encará-la.
_Tudo bem que vocês não se dêem tão bem, mas nós dois...
_Vocês se amam? Digo, você ama ela?_ Alice usou um tom ríspido e naquele segundo acreditei em tudo que Alice dizia, ela só podia ser uma pessoa má, que começado a golpear, não pára, impiedosa.
_Gosto dela... Amor é algo que eu...
_Você não a ama..._ riu.
_O que você entende da minha vida?
_Ok!_ ela ergueu as mãos para o alto em sinal de rendição._ Eu não deveria ter tocado em um assunto que você está tentando correr dele faz um tempo..._ ela pegou o prato e foi para o sofá. Achou o controle na mesa de centro e ligou a Tv, relativamente alta.Me senti horrível sentado sozinho à mesa. Se fosse uma criança eu diria: "Já para cá, volte aqui!"Como ela conseguia me alterar daquela forma, me cortar o apetite? Empurrei o bife para o lado e subi, precisava tomar banho.
_ E é isso... Eu quero arrumar um emprego e trabalhar enquanto isso. Fazer qualquer coisa mesmo, para ganhar dinheiro.
_Bom, eu trabalho com um empresário que estava precisando de uma secretária que falasse muito bem inglês...
_ Eu ia adorar!_ Seus olhos se acenderam, vivos e esperançosos._ Você poderia me indicar para ele?
_Falarei com ele!_ garanti e naquele momento me senti feliz por poder trazer tanta alegria a ela.
Ficou um silêncio no ar, mas não era pertubador. Estranho isso. Nem nos conhecêmos direito... Ela continuou olhando a capa do filme. Um vento bom entrou pela porta da sala e fio de cabelo ficou roçando o rosto dela de um lado para o outro. E cada vez que o fio ia e voltava, meus olhos seguiam o movimento. Até que num ataque de agonia, estendi os dedos e pus o fio atrás da orelha. O que fez ela virar-se e fixar em mim uma visão de amedrontamento, que achei que a assustara.
_Vamos almoçar?_ pulou do sofá e me senti um estúpido, será que ela interpretara mal? Mas só foi um leve toque no cabelo!
_Claro._ levantei-me também, mas inseguro, sem olhá-la. _ Que temos hoje, Fatinha?
_Legumes, estrogonofe e saladas._ ela respondeu arrumando os pratos na mesa.
_Hum... Anh... A Alice vem almoçar hoje?
_Não, ela ligou e disse que só chega para o jantar._ ela respondeu e se virou para ir para cozinha._ Ah! Então, faz batata frita. Mas faz muita, frita também um bife bem grande e mal passado, com aquele sangue escorrendo...
Ouvi uma risada atrás de mim.
_Pode ser dois bifes?_ Daniela enfiou as mãos no bolso e encolheu os ombros._ Posso?_ pediu-me.
Fatinha olhando-me da porta esperou meu aval:
_Dois bem grandes, pode levar essas saladas daqui. E traz refrigerante também. Ah! Muito sorvete na sobremesa.
_Claro, doutor.
_Quando gato sai os ratos fazem a festa!_ Daniela riu alto e parecia se divertir como nunca. Não era esse semblante que eu vira ontem à mesa de jantar.
_Desculpe. _ ela controlou-se, até que ficou séria novamente, ficou constrangida por eu não ter rido também, mas era por eu estar absorvido por essas observações que eu não conseguia parar de fazer, por algum motivo, simplesmente dera para analisá-la desde que chegara._ Foi só uma brincadeira... Sei que ela é sua mulher...
_Tudo bem. Eu sempre estou esperando para a próxima festa._ Sentei-me, também me dando ao luxo de ficar com aquela blusa suada, sem ter a obrigação de tomar banho antes, com os cabelos desgrenhados.
_Você conviveu muito tempo com a sua mãe?_ ela sentou-se, com um leve sorriso de quem sabe de algo mais nos lábios._Não..._ olhei fixamente o copo por alguns segundos._... Na verdade, não convivi com ela. Meu pai se separou dela eu tinha 9 anos, depois vivi com ele e os empregados. Ele não se casou de novo.
_Então, você encontrou tudo que queria na minha irmã. Sorte a sua..._ ela suspirou. Aquilo fora uma ironia?_Ãnh?_ franzi a testa.
_Deixa pra lá..._ ela revirou os olhos e jogou a cabeça para trás, apoiando a parte de trás do pescoço no encosto do assento e ficou contemplando o teto.
_Não! Agora diga...
_Não quero estragar o almoço...
_Diz!_ agora eu estava irritado.
_..._ Ela ergueu a cabeça e me olhou fixamente. Estudando o melhor momento para o golpe:_ Você achou a sua mãe._... Isso está parecendo Édipo Rei..._ ri._ Daquela história grega, que casa com a mãe...
_Eu falei que não queria falar..._ Ela voltou a contemplar o nada no teto branco.
_Talvez eu queira me sentir seguro...
_..._ ela riu e passei o papel de ridículo._... Você quer pela primeira vez ser mandado, ter uma figura feminina te dizendo o que comer, o que vestir, como viver. Mas depois de seis meses, o que me diz?
_..._ engoli em seco. Salvo pelo gongo: Fátima chegara com os bifes._... É diferente da vida que eu tinha...
_Se pudesse escolher, gostaria de ter a vida que tinha antes?
_Eu posso escolher!_ lembrei-a.
_Será? Com ela carregando um filho seu? Ela carrega a proibição de você deixá-la...
Foi a minha vez de parar de cortar o bife e encará-la.
_Tudo bem que vocês não se dêem tão bem, mas nós dois...
_Vocês se amam? Digo, você ama ela?_ Alice usou um tom ríspido e naquele segundo acreditei em tudo que Alice dizia, ela só podia ser uma pessoa má, que começado a golpear, não pára, impiedosa.
_Gosto dela... Amor é algo que eu...
_Você não a ama..._ riu.
_O que você entende da minha vida?
_Ok!_ ela ergueu as mãos para o alto em sinal de rendição._ Eu não deveria ter tocado em um assunto que você está tentando correr dele faz um tempo..._ ela pegou o prato e foi para o sofá. Achou o controle na mesa de centro e ligou a Tv, relativamente alta.Me senti horrível sentado sozinho à mesa. Se fosse uma criança eu diria: "Já para cá, volte aqui!"Como ela conseguia me alterar daquela forma, me cortar o apetite? Empurrei o bife para o lado e subi, precisava tomar banho.
11.8.06
Capítulo 4: (Daniela)
_Achou as meias pretas, Ricardo? _ Alice perguntou assim que o marido chegou para juntar-se a nós, na mesa de jantar. Inciou, então, uma conversa com ele ara preencher o vácuo do nosso diálogo que não emplacara.
_Ah! Achei sim, lá na gaveta do canto, lá na última porta. _ respondeu com um leve tom de ironia, alongando o "a" do "lá". _ É que amanhã tenho que acordar bem cedo para ir a uma reunião e deixei tudo pronto em cima da poltrona.
_Ele é todo metódico! _ Alice soltou uma risada de quem suprime o outro. Não perdera seu jeito.
_ E você, Daniela? Está aí tão quieta, só observando?... _ Ricardo puxou assunto de uma maneira tão brusca. Será que ele não queria que minha irmã iniciasse uma sessão de exposição de todos os seus defeitos?
_Ah!... _ ri constrangida por eles terem percebido a minha imerção em meus pensamentos e suposições.
_Conta sobre a viagem. O que fazia nos Estados Unidos? _ Ele estava, definitivamente, interessado em não ser o foco em questão.
_Ela era garçonete. _ Alice respondeu antes de mim.
_Mas fazia outra atividade, além de trabalhar para ganhar dinheiro? Lá as pessoas ganham melhor, se souberem aproveitar as chances, não é? _ Ricardo, pelo visto, tentava sempre amenizar o clima hostil que Alice tentava instaurar.
_Ah, claro! Trabalhei como ajudante em um roteiro de filme, conheci vários lugares muito interessantes, foi, enfim, uma experiência enriquecedora. Ganhei uma bagagem cultural ótima.
_Pena que não serviu para trazer certificado algum. Afinal, fazer "serviços gerais" em um filme não é tão importante aqui no Brasil. Você tem que fazer faculdade como nós fizemos! _ Alice apontou para eles dois com o dedo da mão que segurava o copo erguido. Bebeu o suco e voltou a cortar seu bife. Ricardo olhou-a longamente por uns segundos e ela percebeu que estava sendo observada. _ Que foi, gente? Eu sou realista! O mercado pede capacitação técnica, não pode ficar a vida inteira naquela viagem ao mundo Disney! Não é, Ricardo? _ buscou apoio.
_... _ ele passou o guardanapo na boca de maneira bem demorada, tentando tomar tempo.
_... Se não se importam... Eu vou para o quarto. Preciso descansar... _ cortei logo a chance de iniciar uma briga entre os dois, eu não chegara naquela casa para trazer discórdia, o quanto mais invisível eu permanecesse, melhor!
Levantei e fui até a dependência de empregada. Olhei para uma das camas de solteiro e deixei meu corpo cair. Meus olhos fecharam-se sozinhos, pesados. Apaguei até a hora do almoço do dia seguinte. Tomei um banho e perguntei a empregada na cozinha pelos patrões. Alice estava na loja e "doutor" Ricardo já era hora de ter chegado.
Na sala, encontrei um DVD sobre o sofá.
_Era para eu ter assistido ontem. _ Uma voz atrás de mim assustou-me. _Desculpe. _ Ricardo riu e começou a desamarrar o nó da gravata como quem tira a forca do pescoço. _ Odeio esse troço!
_Tudo bem. _ continuei lendo a sinopse do filme na contra capa.
_Então... Você deve ter adorado trabalhar no roteiro. Imagina! Ver as cenas, os erros... _ ele se jogou no sofá de pernas abertas, com ajuda de um pé retirou o sapato e depois fez isso com o outro par.
Ele estava querendo continuar o assunto da noite anterior, emendar com a reticência que ficou no diálogo do jantar.
_Ah! Era interessante ver os erros, as repetições, conviver perto dos artistas... _ sentei no sofá também.
_Mas, como foi sua reunião? _ tentei mudar de assunto.
_Ah! Ótima, bons negócios. Lá é assim... _ ele parou por alguns segundos com a boca entreaberta. _ ...Esquece, você não vai querer que eu fique falando de economia. _ meneou a cabeça para os lados.
_Qual o preconceito? Pode falar! _ insisti.
_Então, lá a gente ganha conforme o ganho do cliente. É uma consultoria de empresas. Eu ajudo as empresas a organizarem seus lucros e faturar mais, indico o melhor investimento...
_Puxa! Deve ser excitante!
_Excitante? _ repetiu a palavra, não com ironia, mas sem acreditar que eu pudesse ter feito aquela observação.
_É! Porque é um jogo de riscos. De não saber se vai dar certo, e quando dá, é como uma vitória.
_E-xa-ta-men-te! _ ele arrastou a palavra com um olhar de estupefamento para mim, não crendo que eu pudesse saber o que ele sentia com sua profissão.
_...e você? O que quer fazer aqui no Brasil?
_Bem... Eu... _ acomodei-me melhor no sofá. _ Primeiro...
_Ah! Achei sim, lá na gaveta do canto, lá na última porta. _ respondeu com um leve tom de ironia, alongando o "a" do "lá". _ É que amanhã tenho que acordar bem cedo para ir a uma reunião e deixei tudo pronto em cima da poltrona.
_Ele é todo metódico! _ Alice soltou uma risada de quem suprime o outro. Não perdera seu jeito.
_ E você, Daniela? Está aí tão quieta, só observando?... _ Ricardo puxou assunto de uma maneira tão brusca. Será que ele não queria que minha irmã iniciasse uma sessão de exposição de todos os seus defeitos?
_Ah!... _ ri constrangida por eles terem percebido a minha imerção em meus pensamentos e suposições.
_Conta sobre a viagem. O que fazia nos Estados Unidos? _ Ele estava, definitivamente, interessado em não ser o foco em questão.
_Ela era garçonete. _ Alice respondeu antes de mim.
_Mas fazia outra atividade, além de trabalhar para ganhar dinheiro? Lá as pessoas ganham melhor, se souberem aproveitar as chances, não é? _ Ricardo, pelo visto, tentava sempre amenizar o clima hostil que Alice tentava instaurar.
_Ah, claro! Trabalhei como ajudante em um roteiro de filme, conheci vários lugares muito interessantes, foi, enfim, uma experiência enriquecedora. Ganhei uma bagagem cultural ótima.
_Pena que não serviu para trazer certificado algum. Afinal, fazer "serviços gerais" em um filme não é tão importante aqui no Brasil. Você tem que fazer faculdade como nós fizemos! _ Alice apontou para eles dois com o dedo da mão que segurava o copo erguido. Bebeu o suco e voltou a cortar seu bife. Ricardo olhou-a longamente por uns segundos e ela percebeu que estava sendo observada. _ Que foi, gente? Eu sou realista! O mercado pede capacitação técnica, não pode ficar a vida inteira naquela viagem ao mundo Disney! Não é, Ricardo? _ buscou apoio.
_... _ ele passou o guardanapo na boca de maneira bem demorada, tentando tomar tempo.
_... Se não se importam... Eu vou para o quarto. Preciso descansar... _ cortei logo a chance de iniciar uma briga entre os dois, eu não chegara naquela casa para trazer discórdia, o quanto mais invisível eu permanecesse, melhor!
Levantei e fui até a dependência de empregada. Olhei para uma das camas de solteiro e deixei meu corpo cair. Meus olhos fecharam-se sozinhos, pesados. Apaguei até a hora do almoço do dia seguinte. Tomei um banho e perguntei a empregada na cozinha pelos patrões. Alice estava na loja e "doutor" Ricardo já era hora de ter chegado.
Na sala, encontrei um DVD sobre o sofá.
_Era para eu ter assistido ontem. _ Uma voz atrás de mim assustou-me. _Desculpe. _ Ricardo riu e começou a desamarrar o nó da gravata como quem tira a forca do pescoço. _ Odeio esse troço!
_Tudo bem. _ continuei lendo a sinopse do filme na contra capa.
_Então... Você deve ter adorado trabalhar no roteiro. Imagina! Ver as cenas, os erros... _ ele se jogou no sofá de pernas abertas, com ajuda de um pé retirou o sapato e depois fez isso com o outro par.
Ele estava querendo continuar o assunto da noite anterior, emendar com a reticência que ficou no diálogo do jantar.
_Ah! Era interessante ver os erros, as repetições, conviver perto dos artistas... _ sentei no sofá também.
_Mas, como foi sua reunião? _ tentei mudar de assunto.
_Ah! Ótima, bons negócios. Lá é assim... _ ele parou por alguns segundos com a boca entreaberta. _ ...Esquece, você não vai querer que eu fique falando de economia. _ meneou a cabeça para os lados.
_Qual o preconceito? Pode falar! _ insisti.
_Então, lá a gente ganha conforme o ganho do cliente. É uma consultoria de empresas. Eu ajudo as empresas a organizarem seus lucros e faturar mais, indico o melhor investimento...
_Puxa! Deve ser excitante!
_Excitante? _ repetiu a palavra, não com ironia, mas sem acreditar que eu pudesse ter feito aquela observação.
_É! Porque é um jogo de riscos. De não saber se vai dar certo, e quando dá, é como uma vitória.
_E-xa-ta-men-te! _ ele arrastou a palavra com um olhar de estupefamento para mim, não crendo que eu pudesse saber o que ele sentia com sua profissão.
_...e você? O que quer fazer aqui no Brasil?
_Bem... Eu... _ acomodei-me melhor no sofá. _ Primeiro...
10.8.06
Capítulo 3: (Ricardo)
Procurar uma meia não deve ser tão difícil assim quando a casa é sua, o quarto é seu e a gaveta onde estavam suas meias pretas era sua. Fui até a sala.
_Alice, onde colocou minhas meias? _ perguntei tomando a revista de moda da sua mão.
_Ah, coloquei na última gaveta, na porta do canto. _ respondeu pegando de volta a revista. _ acordou de mal humor, hen? Passou o dia inteiro assim, eu é que deveria estar estressada com esse barrigão. _ fez uma careta de dor, que logo se transformou em surpresa com algum modelo de vestido que vira na página que acabava de virar.
O meu guarda roupa ficou dividido em 1/8 meu e 7/8 dela. Isso significava que meu espaço se resumia "a gaveta da porta do canto". Isso também no armário do banheiro, na geladeira, até no computador que perdeu espaço de tanta imagem de moda. Já fazia um tempo que não achar minhas meias me irritava. Não era bem as meias. Mas tudo. Eu me sentia intruso na minha própria casa. Sempre fui tão simples. Minha sala era espaçosa com almofadas no chão, um tapete grande, tudo claro, clean... E de repente, tem vasos da Jamaica, quadros futuristas, móveis pertencentes a família real tal e me vejo em uma galeria, menos no meu habitat.
Provavelmente quando o bebê nascer eu ficarei com um avos de alguma fração da casa, ou seja, dividiria com o Frog a casinha de cachorro, na área de serviço. Ah! Já ia me esquecendo, ainda faltava a irmã apocalíptica que estava para chegar. Daqui a pouco teríamos que decidir: ou eu, ou o Frog.
_ A campanhia tocou, você não vai atender? _ Alice olhou por cima da revista, enquanto eu ligava a tv na sala para poder assistir ao DVD que alugara.
Tudo bem que ela não se levantaria com aquela barriga pesada, mas eu sentia um sutil tom de patroa na sua voz, que me dava a impressão de ser seu escravo arrastando correntes.
Meu Deus, isso está beirando a uma crise.
Abri a porta e, da varanda, vi uma mulher parada atrás das grades de ferro. Desci as escadas, caminhei por entre o pequeno caminho de cimento que cortava o jardim e pude vê-la com a luz do poste iluminando seu lado esquerdo.
Seus olhos azuis grandes, brilhantes, protegidos por cílios compridos.
Procurei nela qualquer traço que lembrasse Alice e não encontrei nada. Apenas uma calça jeans azul claro, uma camiseta branca e o cabelo liso, longo, preto, caindo pelos ombros. Onde estava o rabo de demônio, os chifres, o cajado com a ponta de garfo?
_ Eu não sou assaltante não, seu moço. _ ela sorriu com tom de gozação e eu me toquei de que ainda estava parado olhando-a, buscando nela a descrição que Alice havia feito.
_ Desculpe. _ passei a mão na nuca, sem jeito, ri e abri o portão, por onde ela passou e, em seguida, posicionou-se à minha frente. Agora a luz iluminava frontalmente seu rosto._ Ricardo. _ apresentei-me _ Sua irmã já deve ter falado de mim. _ estendi a mão.
_ Muito pouco. _ ela apertou a mão, com a sua bem pequena, de finos dedos, dentro da minha. _ A gente não conversa muito. Ao contrário do que deve ter acontecido com você.
_Ãnh? _ Soltei sua mão e enfiei as minhas dentro do bolso do meu jeans velho e desbotado que, só naquele momento, lembrei que deveria ter retirado, segundo os conselhos de Alice. Ela acha que eu não me visto como um homem sério.
_Ela deve ter falado muito de mim... _ ela sorriu e seus lábios rosados inferiores ganharam uma leve mordidinha.
_Ah! Sim, sempre falou de você. Sempre...
_Nossa! _ ela riu olhando para o chão e depois para mim, fechando um pouco os olhos por causa da luz. _ Então, tenho que tirar as suas impressões de mim.
_Não entendi... _ fingi que não sabia que ela conhecia bem a irmã.
_... _ ela chegou mais perto e fez um ar de segredo. Abaixei meu rosto para aproximar-me e achei aquilo divertido. _ ... ela não te disse que eu sou egoísta, roubo a atenção de todo mundo e sempre tentei tomar o que é dela?
_... Não... que isso?
_Já sei algo sobre você. _ ela me deu um soquinho no meu braço. _ Você não mente bem.
Ri e ela riu junto, seus dentes brancos apareceram.
_Vão ficar ai a noite toda? _ Alice falou com a voz grave da soleira da porta cortando os risos com um golpe invisível.
A moça virou-se para trás e encarou séria sua irmã. Engoliu em seco. Parecia estranhamente não estar feliz pelo reencontro.
_Quer ajuda? _ ofereci-me para carregar as malas. Mas ela estendeu a mão no ar para que eu não o fizesse. _ Eu sou fortinha. _ Agarrou a mochila e depois puxou a mala de rodinhas.
_Alice, onde colocou minhas meias? _ perguntei tomando a revista de moda da sua mão.
_Ah, coloquei na última gaveta, na porta do canto. _ respondeu pegando de volta a revista. _ acordou de mal humor, hen? Passou o dia inteiro assim, eu é que deveria estar estressada com esse barrigão. _ fez uma careta de dor, que logo se transformou em surpresa com algum modelo de vestido que vira na página que acabava de virar.
O meu guarda roupa ficou dividido em 1/8 meu e 7/8 dela. Isso significava que meu espaço se resumia "a gaveta da porta do canto". Isso também no armário do banheiro, na geladeira, até no computador que perdeu espaço de tanta imagem de moda. Já fazia um tempo que não achar minhas meias me irritava. Não era bem as meias. Mas tudo. Eu me sentia intruso na minha própria casa. Sempre fui tão simples. Minha sala era espaçosa com almofadas no chão, um tapete grande, tudo claro, clean... E de repente, tem vasos da Jamaica, quadros futuristas, móveis pertencentes a família real tal e me vejo em uma galeria, menos no meu habitat.
Provavelmente quando o bebê nascer eu ficarei com um avos de alguma fração da casa, ou seja, dividiria com o Frog a casinha de cachorro, na área de serviço. Ah! Já ia me esquecendo, ainda faltava a irmã apocalíptica que estava para chegar. Daqui a pouco teríamos que decidir: ou eu, ou o Frog.
_ A campanhia tocou, você não vai atender? _ Alice olhou por cima da revista, enquanto eu ligava a tv na sala para poder assistir ao DVD que alugara.Tudo bem que ela não se levantaria com aquela barriga pesada, mas eu sentia um sutil tom de patroa na sua voz, que me dava a impressão de ser seu escravo arrastando correntes.
Meu Deus, isso está beirando a uma crise.
Abri a porta e, da varanda, vi uma mulher parada atrás das grades de ferro. Desci as escadas, caminhei por entre o pequeno caminho de cimento que cortava o jardim e pude vê-la com a luz do poste iluminando seu lado esquerdo.
Seus olhos azuis grandes, brilhantes, protegidos por cílios compridos.
Procurei nela qualquer traço que lembrasse Alice e não encontrei nada. Apenas uma calça jeans azul claro, uma camiseta branca e o cabelo liso, longo, preto, caindo pelos ombros. Onde estava o rabo de demônio, os chifres, o cajado com a ponta de garfo?
_ Eu não sou assaltante não, seu moço. _ ela sorriu com tom de gozação e eu me toquei de que ainda estava parado olhando-a, buscando nela a descrição que Alice havia feito.
_ Desculpe. _ passei a mão na nuca, sem jeito, ri e abri o portão, por onde ela passou e, em seguida, posicionou-se à minha frente. Agora a luz iluminava frontalmente seu rosto._ Ricardo. _ apresentei-me _ Sua irmã já deve ter falado de mim. _ estendi a mão.
_ Muito pouco. _ ela apertou a mão, com a sua bem pequena, de finos dedos, dentro da minha. _ A gente não conversa muito. Ao contrário do que deve ter acontecido com você.
_Ãnh? _ Soltei sua mão e enfiei as minhas dentro do bolso do meu jeans velho e desbotado que, só naquele momento, lembrei que deveria ter retirado, segundo os conselhos de Alice. Ela acha que eu não me visto como um homem sério.
_Ela deve ter falado muito de mim... _ ela sorriu e seus lábios rosados inferiores ganharam uma leve mordidinha.
_Ah! Sim, sempre falou de você. Sempre...
_Nossa! _ ela riu olhando para o chão e depois para mim, fechando um pouco os olhos por causa da luz. _ Então, tenho que tirar as suas impressões de mim.
_Não entendi... _ fingi que não sabia que ela conhecia bem a irmã.
_... _ ela chegou mais perto e fez um ar de segredo. Abaixei meu rosto para aproximar-me e achei aquilo divertido. _ ... ela não te disse que eu sou egoísta, roubo a atenção de todo mundo e sempre tentei tomar o que é dela?
_... Não... que isso?
_Já sei algo sobre você. _ ela me deu um soquinho no meu braço. _ Você não mente bem.
Ri e ela riu junto, seus dentes brancos apareceram.
_Vão ficar ai a noite toda? _ Alice falou com a voz grave da soleira da porta cortando os risos com um golpe invisível.
A moça virou-se para trás e encarou séria sua irmã. Engoliu em seco. Parecia estranhamente não estar feliz pelo reencontro.
_Quer ajuda? _ ofereci-me para carregar as malas. Mas ela estendeu a mão no ar para que eu não o fizesse. _ Eu sou fortinha. _ Agarrou a mochila e depois puxou a mala de rodinhas.
9.8.06
Capítulo 2: (Daniela)
_Ai, vamos sentir sua falta. _ a voz embargada da Fran, o último abraço, aquelas pessoas ao meu redor com os olhos de adeus prestes a desaguar... tudo parecia exatamente o oposto à minha chegada aos Estados Unidos, quando tudo foi só alegria, ansiedade e esperança.
_Vão nada! E as minhas bagunças, a música alta?... _ ri para levantar o astral e eles riram juntos. _ Não vamos sentir falta mesmo. _ Marcos fez uma careta, arrancou mais risos nervosos de todos. Olhei-o longamente, até que seu riso morreu e ele me puxou para um abraço. _ Se cuida, princesa. _ beijou-me as bochechas várias vezes até ficar bem perto do canto da boca, ainda senti a respiração quente nos meus lábios. Afastou-se e, novamente seus olhar marino, azul, fixou-se em mim, penetrante. Tantas noites de baladas, de loucuras à dois, de descompromisso. E agora, eu via que não queria sair de perto dele. Sempre fizemos planos de que nós voltaríamos para o Brasil, mas os planos nem sempre seguem o rumo de seus donos e ele decidiu ficar.
_Tenho que ir... _ lancei mais um olhar para meus amigos, um sorriso, um aceno e a lágrima eu não deixei ninguém ver, pois eu já estava dentro do carro. Limpei o rosto com as costas das mãos e pedi para o taxista seguir rumo ao aeroporto. Afundei-me no banco e fechei os olhos. Logo eles se abririam para ver meu Brasil. Minha terra quente, de um quente natural, não esse calorão novaiorquino de verão, mas aquele sol amarelo de praia. Logo o cheiro de café, de feijão, de churrasquinho.
Pena que o retorno não seria tão bom assim. Pois, só tinha a minha irmã para contar e ela não gostava de mim. Nunca gostara. Nessas horas, eu pergunto a Deus por que levou nossos pais para me deixar com alguém assim... Alice era o resultado de uma mulher frustrada interiormente. Ela puxara o esforço de papai e eu, a beleza de mamãe, inumeráveis vezes ela nos resumiu assim, quando eu era pequena. Dizia que, com um sorriso, eu conseguia tudo que ela levaria muita energia para arrancar. Não sabia que magia era essa que ela via em mim, mas sabia que essa coisa magnética que me permitia atrair a atenção das pessoas provocara sempre muita inveja. E isso nos afastou. Não agüentava mais ouvir que eu lhe roubava tudo e que nunca iria a lugar nenhum só com um rostinho bonito. Hoje, com o dinheiro dela, com o sucesso como uma dona de uma loja de roupa e com a cosmética, ela parecia realizada. Estava bonita, desfilando de carrão, com um marido. Pronto. Tinha tudo. E eu sabia que se aproximava a hora de ela jogar isso na minha cara.
Segui no vôo refletindo sobre meu futuro. A viagem foi insolitamente intranqüila, não consegui relaxar, senti enjôos. Mas, quando vi o céu do meu Rio de Janeiro bem no entardecer, meu coração disparou. Novamente ao lar retorna a filha pródiga. Uma sensação ótima de pertencimento, de fazer parte de um povo, de identificar-me com seus costumes. Das mãos que tocam, do sorriso alegre do carioca, do pagode nos carros, das novelas passando nas pequenas tvs de restaurantes.
Mais um táxi e eu já estava na frente da casa correspondente ao endereço na minha mão.
Um suspiro, o dedo estendido.
Toquei a campanhia.
_Vão nada! E as minhas bagunças, a música alta?... _ ri para levantar o astral e eles riram juntos. _ Não vamos sentir falta mesmo. _ Marcos fez uma careta, arrancou mais risos nervosos de todos. Olhei-o longamente, até que seu riso morreu e ele me puxou para um abraço. _ Se cuida, princesa. _ beijou-me as bochechas várias vezes até ficar bem perto do canto da boca, ainda senti a respiração quente nos meus lábios. Afastou-se e, novamente seus olhar marino, azul, fixou-se em mim, penetrante. Tantas noites de baladas, de loucuras à dois, de descompromisso. E agora, eu via que não queria sair de perto dele. Sempre fizemos planos de que nós voltaríamos para o Brasil, mas os planos nem sempre seguem o rumo de seus donos e ele decidiu ficar.
_Tenho que ir... _ lancei mais um olhar para meus amigos, um sorriso, um aceno e a lágrima eu não deixei ninguém ver, pois eu já estava dentro do carro. Limpei o rosto com as costas das mãos e pedi para o taxista seguir rumo ao aeroporto. Afundei-me no banco e fechei os olhos. Logo eles se abririam para ver meu Brasil. Minha terra quente, de um quente natural, não esse calorão novaiorquino de verão, mas aquele sol amarelo de praia. Logo o cheiro de café, de feijão, de churrasquinho.
Pena que o retorno não seria tão bom assim. Pois, só tinha a minha irmã para contar e ela não gostava de mim. Nunca gostara. Nessas horas, eu pergunto a Deus por que levou nossos pais para me deixar com alguém assim... Alice era o resultado de uma mulher frustrada interiormente. Ela puxara o esforço de papai e eu, a beleza de mamãe, inumeráveis vezes ela nos resumiu assim, quando eu era pequena. Dizia que, com um sorriso, eu conseguia tudo que ela levaria muita energia para arrancar. Não sabia que magia era essa que ela via em mim, mas sabia que essa coisa magnética que me permitia atrair a atenção das pessoas provocara sempre muita inveja. E isso nos afastou. Não agüentava mais ouvir que eu lhe roubava tudo e que nunca iria a lugar nenhum só com um rostinho bonito. Hoje, com o dinheiro dela, com o sucesso como uma dona de uma loja de roupa e com a cosmética, ela parecia realizada. Estava bonita, desfilando de carrão, com um marido. Pronto. Tinha tudo. E eu sabia que se aproximava a hora de ela jogar isso na minha cara.
Segui no vôo refletindo sobre meu futuro. A viagem foi insolitamente intranqüila, não consegui relaxar, senti enjôos. Mas, quando vi o céu do meu Rio de Janeiro bem no entardecer, meu coração disparou. Novamente ao lar retorna a filha pródiga. Uma sensação ótima de pertencimento, de fazer parte de um povo, de identificar-me com seus costumes. Das mãos que tocam, do sorriso alegre do carioca, do pagode nos carros, das novelas passando nas pequenas tvs de restaurantes.
Mais um táxi e eu já estava na frente da casa correspondente ao endereço na minha mão.
Um suspiro, o dedo estendido.
Toquei a campanhia.
8.8.06
Capítulo 1(Ricardo)
_Eu não sei qual sapato usar! _ Alice era só uma voz ao fundo e uma sombra azul se mexendo pelo quarto. Eu estava completamente absorvido nos gráficos da tela do meu computador._ Se você vai ficar aí enrolando, então, melhor nem ir porque eu odeio chegar atrasada.
Eu podia argumentar que se eu tomasse banho por último, ainda assim, conseguiria tirar um sono na sala enquanto ela se arrumava. Incrível como Alice conseguia fazer combinatória com todos as roupas do guarda-roupa e, no fim, ficar com a primeira. Mas, eu estava realmente preocupado com a condição da bolsa de valores. Não ia nada bem.
_Ricardo, você só pode estar brincando comigo, né? _ A voz, agora mais estridente, bem no meu ouvido quebrou minha concentração.
Com a testa franzida, olhei-a e soltei um suspiro. Agora eu dera para entrar na fase de não enfrentar brigas. O médico explicara que, no estado dela, faria mal para o bebê uma mãe estressada e depressiva. Arrastei-me para o banheiro e lembrei de todas as missas que minha mãe me obrigou a ir durante minha juventude. Voltei a sentir aquela sensação de ser empurrado do aconchego das minhas manhãs de domingo sob meu edredom para tomar uma ducha fria.
Alice era bem assim, um pouco minha mãe. Ela conseguira transformar minha vida de solteiro dono-do-meu-nariz para uma existência de casado-futuro-pai em menos de seis meses. Por que eu não fugia disso? Simplesmente, porque ela tinha um jeito de me provar que, da maneira dela, tudo era mais coerente e resultaria numa felicidade mais compensadora.
_Ricaaaaardo! _ ela deu um grito do quarto.
Escorreguei no sabão do piso do box e corri para a porta do banheiro:
_Que houve? Alguma coisa com o bebê? _ afastei a espuma dos olhos.
_Não, mas não é nada bom... _ ela tacou o telefone sem fio em cima da cama. _ É a minha irmã... Eu já te falei dela... Ela acabou de ligar e...
Revirei os olhos, dei meia volta e retornei para o banho. Por que algumas mulheres sempre fazem uma tempestade e transformam a vida num teatro?
_ Ela está voltando dos Estados Unidos semana que vem e... não tem onde ficar... _ Alice expôs a situação com uma voz tão desesperada que parecia uma adolescente em apuros.
_A sua irmã não tem nenhuma amiga aqui? _ perguntei.
_Não... Ela pediu para ficar com a gente, já que eu tinha dito que a casa era grande...
Eu abri a porta do box e coloquei a cabeça para fora:
_ A sua irmã não é aquela de que sempre me falou: egoísta, que adora roubar a atenção de todo mundo, arrogante, que tem uma personalidade inconstante e difícil de conviver?
_Bom eu disse, mas...
_E quer trazer ela para cá? _ ri irônico.
_Ah, Ricardo, por favor... _ ela fez aquela carinha do gato de botas do filme "Shrek".
_... _ Fechei a porta do banheiro sem nada responder.
Que incrível: uma mulher, um filho, uma cunhada e um cachorro na minha casa, em um semestre. No meu reduto, no meu paraíso.
Em que ponto mesmo eu me perdi?
Eu podia argumentar que se eu tomasse banho por último, ainda assim, conseguiria tirar um sono na sala enquanto ela se arrumava. Incrível como Alice conseguia fazer combinatória com todos as roupas do guarda-roupa e, no fim, ficar com a primeira. Mas, eu estava realmente preocupado com a condição da bolsa de valores. Não ia nada bem.
_Ricardo, você só pode estar brincando comigo, né? _ A voz, agora mais estridente, bem no meu ouvido quebrou minha concentração.
Com a testa franzida, olhei-a e soltei um suspiro. Agora eu dera para entrar na fase de não enfrentar brigas. O médico explicara que, no estado dela, faria mal para o bebê uma mãe estressada e depressiva. Arrastei-me para o banheiro e lembrei de todas as missas que minha mãe me obrigou a ir durante minha juventude. Voltei a sentir aquela sensação de ser empurrado do aconchego das minhas manhãs de domingo sob meu edredom para tomar uma ducha fria.
Alice era bem assim, um pouco minha mãe. Ela conseguira transformar minha vida de solteiro dono-do-meu-nariz para uma existência de casado-futuro-pai em menos de seis meses. Por que eu não fugia disso? Simplesmente, porque ela tinha um jeito de me provar que, da maneira dela, tudo era mais coerente e resultaria numa felicidade mais compensadora.
_Ricaaaaardo! _ ela deu um grito do quarto.
Escorreguei no sabão do piso do box e corri para a porta do banheiro:
_Que houve? Alguma coisa com o bebê? _ afastei a espuma dos olhos.
_Não, mas não é nada bom... _ ela tacou o telefone sem fio em cima da cama. _ É a minha irmã... Eu já te falei dela... Ela acabou de ligar e...
Revirei os olhos, dei meia volta e retornei para o banho. Por que algumas mulheres sempre fazem uma tempestade e transformam a vida num teatro?
_ Ela está voltando dos Estados Unidos semana que vem e... não tem onde ficar... _ Alice expôs a situação com uma voz tão desesperada que parecia uma adolescente em apuros.
_A sua irmã não tem nenhuma amiga aqui? _ perguntei.
_Não... Ela pediu para ficar com a gente, já que eu tinha dito que a casa era grande...
Eu abri a porta do box e coloquei a cabeça para fora:
_ A sua irmã não é aquela de que sempre me falou: egoísta, que adora roubar a atenção de todo mundo, arrogante, que tem uma personalidade inconstante e difícil de conviver?
_Bom eu disse, mas...
_E quer trazer ela para cá? _ ri irônico.
_Ah, Ricardo, por favor... _ ela fez aquela carinha do gato de botas do filme "Shrek".
_... _ Fechei a porta do banheiro sem nada responder.
Que incrível: uma mulher, um filho, uma cunhada e um cachorro na minha casa, em um semestre. No meu reduto, no meu paraíso.
Em que ponto mesmo eu me perdi?
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